Todos nós, dia menos dia menos dia, esbarramos com alguém que nos tira do sério. Uma pessoa realmente difícil. Não falo dos “casca-dura” usuais que cruzam o nossos caminhos e depois desaparecem, como motoristas mal-humorados ou entregadores grosseiros. Refiro-me aos que nos enlouquecem, pisam em nossos calos, mas que não podemos ignorar tampouco evitar, como colegas de trabalho, vizinhos ou parentes. Pode até serem personalidades que explodem sua raiva em nós. O terrorismo psicológico que ocorre com essas pessoas como “gritaria”. Quando o discurso racional fracassa- o que geralmente acontece, pois afinal essa é uma pessoa difícil-, as vozes se elevam e o conflito se intensifica. Para isso pode haver três possíveis desfechos para o jogo:
A) Você sai do recinto e bate a porta.
B) A pessoa difícil sai e bate a porta.
C) Ambas saem e batem a porta.
De qualquer modo, o jogo da “gritaria” sempre culmina com a pobre da porta batendo.
Em vez de tentar mudar a outra pessoa, deveríamos ter cuidado para não entrar no jogo dela. Não interpretar a beligerância como um ataque pessoal e não entrar na reação de “lutar -ou- fugir” que é totalmente animalesco. Manter o equilíbrio mental até mesmo nas situações mais conflitantes, sem responder reativamente a chantagens emocionais; aprece impossível, mas não é. Poderemos ouvir calma e atentamente, sem entrar no ringue para nos defender
Li uma história do folclore coreano escrita por Susan Andrews que mostra muito bem isso.
Uma jovem mulher, Yuan ok, foi até o célebre monge da montanha.
- Oh respeitável sábio – disse ela. – Estou em dificuldades! Faça-me uma poção.
- Tudo bem! – disse o sábio. – Qual é a sua história?
- É meu marido. Nos últimos anos, ele esteve ausente, lutando numa guerra. Agora que voltou quase não fala comigo.
Se falo, ele parece não ouvir. Quando abre a boca para falar, é rude e grosseiro.. Se lhe sirvo, ele não gosta; empurra o prato para o lado e sai da mesa, raivoso. Preciso de uma poção para que ele volte a ser amoroso e carinhoso!
O sábio respondeu:
- Tenho a receita, mas o ingrediente essencial é o bigode de um tigre vivo.
-O bigode de um tigre vivo! – disse a moça. – Como vou conseguir isso?
- Se a poção for realmente importante para você, então você terá êxito. – respondeu o monge.
A moça foi para casa. Naquela noite, enquanto o marido dormia, saiu furtivamente com uma tigela de arroz e um naco de carne. Chegou a uma prudente distância da caverna de um tigre, estendeu a comida e o chamou para comer. O tigre não veio. Na noite seguinte, fez a mesma coisa, desta vez mais perto da caverna. De novo, nada aconteceu. Todas as noites ela ia à caverna. Cada vez se aproximando mais. Pouco a pouco, o tigre acostumou-se com ela.
Certa noite chegou a distancia da qual se poderia atirar uma pedra na caverna e parou. A moça e o tigre fitaram-se a luz da lua.
Na noite seguinte, ela se aproximou ainda mais, a ponto de estar tão próxima que poderia falar com o tigre com uma voz muito suave. Pouco depois, o tigre comeu a comida oferecida.
Na outra noite, o tigre a esperava. Depois que ele comeu, ela passou a mão sobre a sua cabeça, e ele começou a ronronar. Seis meses haviam se passado desde a noite da primeira visita. Finalmente, depois de tê-lo acariciado na cabeça, ela disse: “Ó generoso tigre, preciso de um de seus bigodes. Por favor, não se zangue comigo!”. E ela cortou um de seus bigodes. O tigre não se zangou, e a lambeu. Ela correu em disparada pela trilha, com o bigode nas mãos. Exultante, chegou à caverna do eremita: “Ó grande sábio, consegui o bigode do tigre! Agora você pode fazer a poção mágica!” O sábio examinou o bigode, cuidadosamente, satisfeito porque era mesmo de tigre, e jogou-o na fogueira.
- O que você fez? – gritou a moça. – Depois de todo o esforço que eu fiz para pegar o bigode.
- Conte-me como você o conseguiu. – disse o sábio.
- Todas as noites, eu ia à caverna do tigre com uma tigela de comida, para ganhar sua confiança. Falava docemente com ele, para fazê-lo compreender que só queria o seu bem. Fui paciente. Cada noite levava comida sabendo que ele não comeria, mas não desisti. Nunca falei asperamente, nem o censurei. Finalmente, numa noite, ele andou alguns passos em minha direção. Nas noites seguintes, ele já estava me esperando na trilha e comia da tigela. Passei a mão em sua cabeça, e ele começou a ronronar. Foi aí que consegui cortar o bigode dele.
Você domesticou o tigre com sua persistência e o seu amor. – disse o sábio.
- Mas você jogou o bigode do tigre ao fogo! Foi tudo a troco de nada! – lamentou-se ela.
- Não, não foi tudo a troco de nada. Você não precisa mais do bigode. Será que o seu marido é mais feroz que um tigre? Será que ele é menos sensível ao carinho e a compreensão? Se você é capaz de ganhar a confiança de um animal selvagem e sedento de sangue com suavidade e paciência, certamente poderá fazer o mesmo com o seu marido!
Yuan Ok permaneceu emudecida por alguns momentos.
Então voltou pela trilha, refletindo sobre a grande verdade que havia aprendido do sábio da montanha.
O segredo para amar pessoas difíceis é não morder a isca da negatividade delas e deixar que elas mordam sua isca de um coração empático e cheio de amor.
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quinta-feira, 11 de março de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
A história é sua.
Eu sempre me senti como Cheherazade, aquela garota esperta das mil e uma noites. Não porque sou esperta, mas porque de algum modo sempre soube que contar histórias me salvava de não perder a cabeça, como era o caso de Cheherazade, mas de perder a mim mesma.
Quando era muito pequena e não sabia ler, imaginava histórias para escapar do medo do escuro. Contava para mim mesma na minha cama de bebê crescido. Quando entrei na escola, imaginava enredos que me carregavam para além das crueldades infantis que me aterrorizavam tanto ou mais que monstros noturnos. Sempre soube que contar histórias me salva da versão adulta do medo do escuro, ordena a vida, me dá sentido e identidade.
Ao tornar-me uma narradora da vida fui aprendendo algo determinante para o curso da minha existência. Toda a vida é uma invenção própria. Não que ela não seja feita de fatos, de dados concretos, de eventos incontroláveis. O que é absolutamente uma criação própria é a forma como cada um olha para sua vida.
De fato, há uma só existência. Mas são várias as possibilidades de narrativas desta mesma existência, um mesmo episódio, por exemplo, vivido por você e sua mãe será contado às vezes de maneira totalmente diversa por você e por ela. E ninguém estará mentindo. Da mesma forma, o mesmo fato vivido por você poderá ser narrado de formas opostas por você mesmo, em momentos diferentes da sua vida. E você estará sendo verdadeiro em ambas as ocasiões.
Isso não significa o que acontece ou que aconteceu. Apenas que há muitas possibilidades de olhar para o que acontece ou aconteceu. Há muitas verdades possíveis. E a escolha de como olhar para os eventos (ou para falta deles) de sua vida que vai determinar a própria vida. Ou seja, ao escolher como olhar para sua vida você escolhe quem você é.
Quando olho para trás, para os 25 anos transcorridos de minha vida, não posso pensar nela como um filme de terror. Durante muito tempo, embora não pudesse pensar, era assim que eu via a sequência de episódios que me constituía. E chegava a ficar envenenada por isso.
Aos poucos, eu mesma fui enjoando dessa narrativa. Cansei do papel de mulher atormentada que havia sido destroçada pelos moinhos de Carlota. Resumindo: eu me via como uma heroína de romance clássico. Comecei a perceber que era heroína de folhetim de banca de revista. E não gostei muito da queda de hierarquia na literatura mundial.
Hoje olho para a mesmíssima sequência encadeada de episódios como uma vida com alguns pesadelos e tropeços, mas com muita diversão e intensidade também. Uma vida, enfim, misturada com um pouco de tudo como são as vidas e, que me trouxe até aqui e ainda me levará a muitos lugares. E olho para aquela personagem grandiloquente que eu era com ternura.
O que aconteceu? Descobri que o poder de contar minha história está em mim. É meu. Sou eu que decido quais são os pontos culminantes, os ápices da minha existência, ao olhar para o passado e escolher o que vai dar sentido ao presente e somar o futuro. Da mesma forma que um roteirista de cinema sabe que é preciso mesclar silêncios, drama diálogos inteligentes, conversas banais, respiro cômico e também esquecimentos. E são os cortes no meio da edição que vão garantir o ritmo do filme.
Hoje não tenho a menor paciência com gente que continua culpando a mãe, o pai ou as agruras da infância por tudo o que deveria ter conquistado e não conquistou. Ou gente que culpa o chefe ou a suposta falta de oportunidades por tudo o que deveria ser profissionalmente e não é. Sua história é medíocre por culpa do mundo, parece que a pessoa não tem nada a ver com isso. Só estava passando quando virou personagem de um conto do vigário.
Gente assim gasta a vida repetindo a mesma ladainha, contando a mesma história para si - e para os outros. É um disco quebrado. Como a vida vai mudar se o dono da história só enxerga um enredo possível? Ao observar esse tipo de personagem percebi que, na verdade, ele não quer mudar. Só diz que quer – e afirma não conseguir por fatos externos a sua vontade.
A história é chata, dá sono no meio, mas é segura. Gente assim morre de medo do desconhecido. Prefere uma existência de vítima do mundo a se arriscar a enxerga-se de outro modo. Há um momento em que é preciso se responsabilizar pela vida, por contar sua história ou ficar para sempre refém de versões alheias sobre a nossa existência.
Nem todos são capazes de enxergar a vida com larga liberdade. Nem todos viveram todas as suas faltas. O que podemos é escolher se vamos olhar com generosidade para nossa vida – e para a vida do outro – ou vamos gastá-la inteira nos lamuriando de nossa pouca sorte.
Qualquer um pode escolher como olhar para si mesmo. Todo homem e toda mulher contém em si pelo menos dois espelhos: um deles o reflete como silhueta sem rosto definido, manchado na multidão, destituído de importância; o outro o revela único, singular, um evento histórico irrepetível. É o mesmo homem ou mulher que se pode olhar apenas para o chão e se identificar com a meleca que cola nos sapatos ou olhar para cima e se reconhecer na matéria das estrelas.
Ambas as identificações são fatos comprovados pela ciência. Basta escolher em que espelho você prefere se reconhecer. Parece-me no mínimo curioso que uma parte das pessoas escolhe se identificar com a meleca e viver de acordo.
De certo modo, temos toda a escolha de ser Cheherazade, a garota esperta das mil e uma noites, que decidiu contar histórias para manter a narrativa da sua própria. Ou podemos ser todos, as garotas não muito espertas que perderam a cabeça antes dela porque deixaram que o sultão decidisse o final de sua história.
Suely Carvalho.
Quando era muito pequena e não sabia ler, imaginava histórias para escapar do medo do escuro. Contava para mim mesma na minha cama de bebê crescido. Quando entrei na escola, imaginava enredos que me carregavam para além das crueldades infantis que me aterrorizavam tanto ou mais que monstros noturnos. Sempre soube que contar histórias me salva da versão adulta do medo do escuro, ordena a vida, me dá sentido e identidade.
Ao tornar-me uma narradora da vida fui aprendendo algo determinante para o curso da minha existência. Toda a vida é uma invenção própria. Não que ela não seja feita de fatos, de dados concretos, de eventos incontroláveis. O que é absolutamente uma criação própria é a forma como cada um olha para sua vida.
De fato, há uma só existência. Mas são várias as possibilidades de narrativas desta mesma existência, um mesmo episódio, por exemplo, vivido por você e sua mãe será contado às vezes de maneira totalmente diversa por você e por ela. E ninguém estará mentindo. Da mesma forma, o mesmo fato vivido por você poderá ser narrado de formas opostas por você mesmo, em momentos diferentes da sua vida. E você estará sendo verdadeiro em ambas as ocasiões.
Isso não significa o que acontece ou que aconteceu. Apenas que há muitas possibilidades de olhar para o que acontece ou aconteceu. Há muitas verdades possíveis. E a escolha de como olhar para os eventos (ou para falta deles) de sua vida que vai determinar a própria vida. Ou seja, ao escolher como olhar para sua vida você escolhe quem você é.
Quando olho para trás, para os 25 anos transcorridos de minha vida, não posso pensar nela como um filme de terror. Durante muito tempo, embora não pudesse pensar, era assim que eu via a sequência de episódios que me constituía. E chegava a ficar envenenada por isso.
Aos poucos, eu mesma fui enjoando dessa narrativa. Cansei do papel de mulher atormentada que havia sido destroçada pelos moinhos de Carlota. Resumindo: eu me via como uma heroína de romance clássico. Comecei a perceber que era heroína de folhetim de banca de revista. E não gostei muito da queda de hierarquia na literatura mundial.
Hoje olho para a mesmíssima sequência encadeada de episódios como uma vida com alguns pesadelos e tropeços, mas com muita diversão e intensidade também. Uma vida, enfim, misturada com um pouco de tudo como são as vidas e, que me trouxe até aqui e ainda me levará a muitos lugares. E olho para aquela personagem grandiloquente que eu era com ternura.
O que aconteceu? Descobri que o poder de contar minha história está em mim. É meu. Sou eu que decido quais são os pontos culminantes, os ápices da minha existência, ao olhar para o passado e escolher o que vai dar sentido ao presente e somar o futuro. Da mesma forma que um roteirista de cinema sabe que é preciso mesclar silêncios, drama diálogos inteligentes, conversas banais, respiro cômico e também esquecimentos. E são os cortes no meio da edição que vão garantir o ritmo do filme.
Hoje não tenho a menor paciência com gente que continua culpando a mãe, o pai ou as agruras da infância por tudo o que deveria ter conquistado e não conquistou. Ou gente que culpa o chefe ou a suposta falta de oportunidades por tudo o que deveria ser profissionalmente e não é. Sua história é medíocre por culpa do mundo, parece que a pessoa não tem nada a ver com isso. Só estava passando quando virou personagem de um conto do vigário.
Gente assim gasta a vida repetindo a mesma ladainha, contando a mesma história para si - e para os outros. É um disco quebrado. Como a vida vai mudar se o dono da história só enxerga um enredo possível? Ao observar esse tipo de personagem percebi que, na verdade, ele não quer mudar. Só diz que quer – e afirma não conseguir por fatos externos a sua vontade.
A história é chata, dá sono no meio, mas é segura. Gente assim morre de medo do desconhecido. Prefere uma existência de vítima do mundo a se arriscar a enxerga-se de outro modo. Há um momento em que é preciso se responsabilizar pela vida, por contar sua história ou ficar para sempre refém de versões alheias sobre a nossa existência.
Nem todos são capazes de enxergar a vida com larga liberdade. Nem todos viveram todas as suas faltas. O que podemos é escolher se vamos olhar com generosidade para nossa vida – e para a vida do outro – ou vamos gastá-la inteira nos lamuriando de nossa pouca sorte.
Qualquer um pode escolher como olhar para si mesmo. Todo homem e toda mulher contém em si pelo menos dois espelhos: um deles o reflete como silhueta sem rosto definido, manchado na multidão, destituído de importância; o outro o revela único, singular, um evento histórico irrepetível. É o mesmo homem ou mulher que se pode olhar apenas para o chão e se identificar com a meleca que cola nos sapatos ou olhar para cima e se reconhecer na matéria das estrelas.
Ambas as identificações são fatos comprovados pela ciência. Basta escolher em que espelho você prefere se reconhecer. Parece-me no mínimo curioso que uma parte das pessoas escolhe se identificar com a meleca e viver de acordo.
De certo modo, temos toda a escolha de ser Cheherazade, a garota esperta das mil e uma noites, que decidiu contar histórias para manter a narrativa da sua própria. Ou podemos ser todos, as garotas não muito espertas que perderam a cabeça antes dela porque deixaram que o sultão decidisse o final de sua história.
Suely Carvalho.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O Ser do coração
Dias atrás tive a minha própria visão de Proust. Quem não conhece as Madeleines dele. No volume I de Em busca do tempo perdido, o personagem principal embarca em uma viajem pelas suas memórias ao morder um desses bolinhos franceses. Só vai acabar páginas depois, ao final de uma dessas obras primas da Literatura. No meu caso, a viajem começou com uma frase do meu querido professor de pilates.
Ao final de cada aula, durante o relaxamento, ele costuma pedir ajuda a nossa imaginação. Sempre penso na estranheza dessas evocações, como “imagine uma luz amarela envolvendo o seu fígado”... Quando eu conseguia imaginar essa luz em volta do meu fígado, a aula já tinha acabado. Naquele dia, porém ele disse: “imagine uma flor bem perfumada”.
De imediato senti o perfume da primavera, uma árvore não muito lata que se cobre de flores roxas e brancas. A minha primavera tem um perfume extraordinário e tão poderoso que toma conta de um quarteirão inteiro. Debaixo dela eu me sinto uma ninfa dos bosques e vivo mitologias só minhas.
Eu sempre amei a vida e a amo até hoje por ter me dado algo que só percebi agora, há mil quilômetros e décadas de distancia, em uma aula de pilates, pelo cheiro das flores da primavera do seu jardim (o jardim da vida) que me alcançaram em um sobressalto da memória.
A vida me deu um grande jardim. E eu não sei o que teria sido de mim sem ele. Não é um jardim qualquer.
Se algumas pessoas têm de se resignar aos canteiros ordenados da aparência, as cores discretas e as combinações comportadas subversão da ordem. Em um enorme quintal a vida plantou de tudo. E tudo misturado. E deixou essa orquestra vegetal crescer segundo os humores de cada espécie.
Havia flores comestíveis, frutas exóticas, regiões com plantas tão fechadas que aranhas e insetos desconhecidos se multiplicavam em cenas de sexo violento e explicito que qualquer um podia assistir com olhos estalados. Nessa geografia desvairada, como uma criança sem tempo, eu comia flores, mastigava formigas e via os louva-a- deus perderem literalmente a cabeça. Não era um jardim, era uma selva. Tardiamente me dei conta disso. Charles Darwin poderia ter construído pelo menos uma parte de sua teoria sem sair desse jardim.
Eu dormia em casa, mas vivia ali. Era naquele jardim que “as estações se sucediam produzindo nada além de si mesmas”. Para mim, a crueldade humana da ordenação da vida no lado de fora dos muros do quintal só era suportável porque eu podia me entregar à vegetação indomável daquele jardim. Eu não era capaz de racionalizar, mas sentia com as minhas vísceras que apenas esse particular fazia sentido. A vida estaria fora de controle, não nas regras que regem uma cidade que, não deixa de ser uma versão menor do mundo, o jardim mantém a minha sanidade.
Ao crescer, perdi o jardim. Ele continuava lá, mas eu já não era capaz de enxergá-lo. A vida continuou plantando. E à medida que as pessoas foram morrendo ao redor dele, mais e mais voraz e fechado o jardim foi se tornando. Já era difícil vislumbrar a beleza daquele mato.
Para alguns pode ser uma ótima idéia se livrar de um matagal. Menos para mim. Nunca saberei transmitir a sensação de assisti-lo ser esmagado pelo concreto de um prédio impessoal. Mas a vida jamais impede que um dia “o inverno se torne primavera”. E ao vir de novo que as plantas já começavam a subverter os cômodos desmatados, fiquei aliviada. Eu estava a salvo.
Foi apenas ao final da aula de pilates, ao ser tomado pelo cheiro das flores da primavera do meu jardim secreto, que compreendi algo que esteve sempre ali. Tão óbvio talvez óbvio demais para ver. O jardim é o meu coração selvagem, o ser do coração. Na violência daquelas plantas entrelaçadas, crescendo sem poda e sem propósito, ele protege o melhor de mim. Impede que a tragédia da vida não como ela é, mas como nos obrigam a acreditar que ela seja, esmague o melhor de mim.
É ali naqueles cantos úmidos e sombrios que o meu coração bate com fúria, enquanto nas paredes de suas casas alguns encarceram suas grandes esperanças numa máscara de resignação.
Deitada na mesa de pilates, de noite com apenas um iogurte de cenoura e laranja no estomago, eu vi os braços e pernas do jardim se enraizando e virando seiva e tronco na selvageria da vegetação semeada por ele a revelia de todos. Naquele jardim onde eu guardei a melhor porção de mim mesma, para sempre eu seria, como Jean Coctau, “a mais bela flor do mundo”.
Como é possível compreender algo tanto tempo depois e em contexto tão fora de propósito?
Parta você também em busca de seu próprio coração selvagem. Descubra também que, em um minuto de assalto da memória, provocado por um cheiro de flor, que é preciso ter um para viver.
Parta você também em busca de seu próprio coração selvagem. Descubra também que, em um minuto de assalto da memória, provocado por um cheiro de flor, que é preciso ter um para viver.
Pela vida a gente vai perdendo as unhas, deixando fragmentos de dentes aqui e ali. Às vezes se convencendo de que é preciso se resignar a uma lógica que nos garante ser maior que a gente. Aceitação é uma palavra generosa, preenche de possibilidades. Resignação é a pior palavra da língua portuguesa. É um esmagamento. Sempre fui capaz de compreender a selvageria, jamais a resignação.
Não penso que nascemos para nos resignarmos a esta ou àquela vida. Nascemos para viver. Nesse embate com as tantas paredes cotidianas, é preciso manter nosso coração selvagem batendo. Cravar flores na terra úmida de nossa alma em vez de semear pedras que erguem muros.
Se ainda não desistimos, é porque nosso coração selvagem está em algum lugar, mesmo que não o percebamos. Pode estar em um jardim, como o meu, em um sonho resistente, entre as páginas de um livro por escrever, em alguma mania, em uma obsessão. É nesse segredo só nosso que mora nossa vontade de viver, contra tudo e contra todos os aniquilamentos, para além das máscaras com que cobrimos a estranheza de nossa face. É preciso encontrá-lo para colocá-lo de volta em nosso peito.
Não penso que nascemos para nos resignarmos a esta ou àquela vida. Nascemos para viver. Nesse embate com as tantas paredes cotidianas, é preciso manter nosso coração selvagem batendo. Cravar flores na terra úmida de nossa alma em vez de semear pedras que erguem muros.
Se ainda não desistimos, é porque nosso coração selvagem está em algum lugar, mesmo que não o percebamos. Pode estar em um jardim, como o meu, em um sonho resistente, entre as páginas de um livro por escrever, em alguma mania, em uma obsessão. É nesse segredo só nosso que mora nossa vontade de viver, contra tudo e contra todos os aniquilamentos, para além das máscaras com que cobrimos a estranheza de nossa face. É preciso encontrá-lo para colocá-lo de volta em nosso peito.
Escreva primeiro em seu coração antes de transformar pensamentos em letras, de um outro jeito exercendo a sua outra voz.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Fala a verdade:
Você ainda acha que podemos ficar juntos e correr o mundo de mãos dadas, apaixonados como antes? Subir pelas paredes com tanto prazer envolvido entre nós? Trocar beijos fatais, paranormais, surreais? Ter vontade de saber aonde cada um quer ser tocado e nem precisa pedir porque as mãos caminham sozinhas nas direções exatas?
Pois fique sabendo que ainda tenho esperança. Que todos os dias ao acordar, lembro do seu rosto, do calor de seus lábios em meu corpo. Do seu olhar desagregador porque tudo em mim sempre ficou sem forma quando ele me tocava. Amolecia toda. A pele parecia sair de mim e ficar em suas mãos. Eu ficava nua, sem ela para me proteger. E para quê, se era você que a segurava? A única coisa que importava era que eu queria ser sua para sempre.
Ainda tenho esperança e por essa razão dói, sabia? Meu coração aperta e choro de saudade. Os dias passam e não são mais os mesmos. Sua voz linda dizendo "oi". A sensualidade. O tom certo e provocador de loucas vibrações que faziam meu corpo voar como folhas ao vento do outono.
Que dias prazerosos tive ao seu lado. E mesmo que tenha raiva, mágoa, a lembrança é muito gostosa. Fico triste porque um dia vou precisar matar essa esperança que gostaria de ter para sempre. Queria era sair buscando a sua presença. Seu cheiro. Pedir ao destino que nos pusesse frente a frente.
‘Preciso ter isso no peito batendo forte. Que pulse. Me acorde, mas, por favor, me mantenha viva.
Desejos me provocam de maneira sobrenatural. Até a lembrança do ar que saía por entre seus dedos eu lembro ainda, porque parecia um sopro de vida para minha pouca vida.
Que difícil entender o coração e jurava que tudo era concreto, certo como dois mais dois são quatro. Coisas que nunca senti, nossos corpos unidos fizeram nascer. Ah! Como eu acredito. Acho que é para sempre a nossa história de amor.
É em seus braços que eu quero estar. Mesmo que o tempo passe vou esperar. Que se dane se essa vontade é verdade ou mentira, que importa? Minha alma é sua para sempre. Ela abriga as melhores lembranças, os momentos que pude ser divertida, engraçada, bem humorada.
Mas que sentimento bom de sentir. A saudade das noites sem limites. De sua pegada em meu corpo, para dormir fazendo amor. Como ríamos de nós dois. Repetidas horas de prazer. Tudo em volta parecia nada. Depois a gente programava o dia seguinte buscando no chip cravado em nossos cérebros a memória invadida pelos vírus da paixão. Ele destruía tudo: o passado dolorido, as histórias tristes, os dissabores vividos.
Dentro do meu espírito ainda é tempo. Preciso ter isso no peito batendo forte. Que pulse. Me acorde, mas, por favor, me mantenha viva. Controvérsias. Palavras soltas. Como lembrar que o tempo se foi se em mim a agenda parou de rodar? Esperança é assim. Mexe, contorce, invade as entranhas. Transpira nos poros as lágrimas da saudade.
‘Vou seguindo em frente. Um dia de cada vez. Não pode, não pode. Tudo bem, eu entendo. Mas a esperança ninguém tira daqui.
Sabe? Sou sua. Totalmente sua. Não importa quanto tempo passe. Nem quantas vezes vou dizer "sim" a você mesmo com medo de sofrer de novo. Nem os dias que vou esperar. No fundo, eu queria era estar em seus braços. Descansar meu corpo, deslizar as mãos sobre seu peito. Aplaudir o imenso orgasmo que sempre tive quando viajou por dentro de mim. O combustível de minha vida. Censura que não mais existia. Você rasgou todos os papéis-documentos que me puniam por ser infeliz, estes que eu guardava dentro de mim há anos.
Essa é a ultima esperança. A que quero ter sempre dentro de mim. A da palavra contida que eu queria gritar e que chegasse até você. Sou viciada em seu toque. Meu êxtase.
Vou seguindo em frente. Um dia de cada vez. Não pode, não pode. Tudo bem, eu entendo. Mas a esperança ninguém tira daqui. Esta que faz imaginar que, do nada, aparece e me rouba do sonho que pode não ter fim. Torna realidade. Tira-me do faz de conta e me faz feliz.
A última esperança em mim é a que não morre.
Pois fique sabendo que ainda tenho esperança. Que todos os dias ao acordar, lembro do seu rosto, do calor de seus lábios em meu corpo. Do seu olhar desagregador porque tudo em mim sempre ficou sem forma quando ele me tocava. Amolecia toda. A pele parecia sair de mim e ficar em suas mãos. Eu ficava nua, sem ela para me proteger. E para quê, se era você que a segurava? A única coisa que importava era que eu queria ser sua para sempre.
Ainda tenho esperança e por essa razão dói, sabia? Meu coração aperta e choro de saudade. Os dias passam e não são mais os mesmos. Sua voz linda dizendo "oi". A sensualidade. O tom certo e provocador de loucas vibrações que faziam meu corpo voar como folhas ao vento do outono.
Que dias prazerosos tive ao seu lado. E mesmo que tenha raiva, mágoa, a lembrança é muito gostosa. Fico triste porque um dia vou precisar matar essa esperança que gostaria de ter para sempre. Queria era sair buscando a sua presença. Seu cheiro. Pedir ao destino que nos pusesse frente a frente.
‘Preciso ter isso no peito batendo forte. Que pulse. Me acorde, mas, por favor, me mantenha viva.
Desejos me provocam de maneira sobrenatural. Até a lembrança do ar que saía por entre seus dedos eu lembro ainda, porque parecia um sopro de vida para minha pouca vida.
Que difícil entender o coração e jurava que tudo era concreto, certo como dois mais dois são quatro. Coisas que nunca senti, nossos corpos unidos fizeram nascer. Ah! Como eu acredito. Acho que é para sempre a nossa história de amor.
É em seus braços que eu quero estar. Mesmo que o tempo passe vou esperar. Que se dane se essa vontade é verdade ou mentira, que importa? Minha alma é sua para sempre. Ela abriga as melhores lembranças, os momentos que pude ser divertida, engraçada, bem humorada.
Mas que sentimento bom de sentir. A saudade das noites sem limites. De sua pegada em meu corpo, para dormir fazendo amor. Como ríamos de nós dois. Repetidas horas de prazer. Tudo em volta parecia nada. Depois a gente programava o dia seguinte buscando no chip cravado em nossos cérebros a memória invadida pelos vírus da paixão. Ele destruía tudo: o passado dolorido, as histórias tristes, os dissabores vividos.
Dentro do meu espírito ainda é tempo. Preciso ter isso no peito batendo forte. Que pulse. Me acorde, mas, por favor, me mantenha viva. Controvérsias. Palavras soltas. Como lembrar que o tempo se foi se em mim a agenda parou de rodar? Esperança é assim. Mexe, contorce, invade as entranhas. Transpira nos poros as lágrimas da saudade.
‘Vou seguindo em frente. Um dia de cada vez. Não pode, não pode. Tudo bem, eu entendo. Mas a esperança ninguém tira daqui.
Sabe? Sou sua. Totalmente sua. Não importa quanto tempo passe. Nem quantas vezes vou dizer "sim" a você mesmo com medo de sofrer de novo. Nem os dias que vou esperar. No fundo, eu queria era estar em seus braços. Descansar meu corpo, deslizar as mãos sobre seu peito. Aplaudir o imenso orgasmo que sempre tive quando viajou por dentro de mim. O combustível de minha vida. Censura que não mais existia. Você rasgou todos os papéis-documentos que me puniam por ser infeliz, estes que eu guardava dentro de mim há anos.
Essa é a ultima esperança. A que quero ter sempre dentro de mim. A da palavra contida que eu queria gritar e que chegasse até você. Sou viciada em seu toque. Meu êxtase.
Vou seguindo em frente. Um dia de cada vez. Não pode, não pode. Tudo bem, eu entendo. Mas a esperança ninguém tira daqui. Esta que faz imaginar que, do nada, aparece e me rouba do sonho que pode não ter fim. Torna realidade. Tira-me do faz de conta e me faz feliz.
A última esperança em mim é a que não morre.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
O coração maior do mundo
Eu queria ter o coração maior do mundo. Nele caberia tudo ou quase tudo. Poderia abrigar diversos sentimentos: saber perder, ficar feliz quando ganhar e não com medo de a conquista escapar. Colecionar potinhos de segurança, porque ando instável e isso me causa tristeza. Ter uma bula sem tamanho para reconhecer pessoas que me façam bem. Grandes vontades para desfrutar os melhores momentos com os amigos. Conjunto de latinhas sem validade de consumo. No quarto dos fundos eu trancaria o orgulho, a onipotência. Feridas ainda abertas para que lá sarem. Colocaria abaixo o closet de máscaras que escondem a cara pálida de minha identidade machucada e criaria um super estúdio de maquiagem. E o número imenso de sapatos que não me levam a lugar algum, sem pena, substituiria por botas de combate. Claro, inúmeros sapatos de cristal.
Conteúdo para perceber erros e saber me perdoar. Sim, porque primeiro temos que nos perdoar a si próprios.
Esse coração poderia ser dilatado o suficiente para abrigar as perdas, a saudade que tanto sinto de você quando desaparece de mim. Estocaria balas de oxigênio para abrandar a falta de fôlego quando não consegue expressar um pulsar sem se sentir fragilizado. Queria que fosse o coração maior do mundo para que depois do sofrer reagisse como um guerreiro.
Um coração assim me ajudaria bastante. Seria mais descontraída, seria mais eu mesma, quando encontrasse o único homem que me fez sentir mulher. Que se danem os dogmas de segurança dos cofres de minha alma. Eu explodiria todos.
‘Um coração tamanho GG imaginário povoa a minha mente. Meu espírito cria asas e voa em liberdade. Quero ser livre, mas espera um pouco... Eu sou livre. Quero apenas usufruir mais de minha liberdade.
Um coração maior do mundo poderia guardar munições para quando tivesse saudade de ti, homem da minha vida. Oferecer a vigor o necessário para abrir os olhos no despertar das manhãs e perceber que o tempo nada mudou o que sinto por você. Injetar mais sangue em meus passos para que quando caminhasse fosse mais firme em minhas decisões.
Se pudesse ter o coração maior do mundo espalharia o despudor, pregaria fotos em preto e branco do sexo rasgado que fizemos em suas paredes vermelhas. Nossa! Seriam muitas. Projetaria slides das nossas vontades absurdas. Desenharia seus lindos lábios no hall de entrada, assim sempre queimaria por dentro de desejo.
Meu coração pequenino já chorou demais, sabia? Molhou por inteiro o chão do quarto porque deixei escorrer as lágrimas que guardava em minhas entranhas. E por não suportar mais tantas coisas assim parou e decidiu per si viver feliz com os risos espontâneos que abandonei por preferir as lagrimas.
Queria soltar balões coloridos em um estacionamento. Espalhar nas ruas confetes multicores. Vestir minha cama com lençóis brancos e macios. Tudo para deitar ao seu lado. Um coração tamanho GG imaginário povoa a minha mente. Meu espírito cria asas e voa em liberdade. Quero usufruir mais de minha liberdade.
Meu coração pequenino está sendo pouco para alguém como eu. Sou intensa. O sorriso de prazer é o carimbo autenticado de minha vida e tenho sufocado o coitado. Tenho esperança em profusão, crio histórias, agendo datas que não existem. Sou pura essência feminina.
Como eu queria um coração enorme para agüentar tudo que sinto. Para que meus sentimentos não fossem mais espremidos como em mãos de gigante de terra encantada.
Meu coração GG me tiraria dos medos. Saberia seduzir você, meu amor. E me faria sentir um milhão de vezes mais a textura de sua pele em minhas mãos.
Também aumentaria os metros quadrados para abrigar mais coisas de nós dois. Para construir uma tenda e ficar deitada fazendo compressas de gelo em minh’alma, e deixar de molho em caldo frio o meu espírito. Esperar relaxada para sentir, de novo, o seu corpo no meu. O hálito que alucina e inebria.
Talvez vocês, também tenham essa vontade de alargar o coração para que pulse no peito feito louco. Não dar trégua às emoções. Amar. Sentir. Perdoar, se enraivecer. E vive com medo, não é mesmo? Nele caberiam muito mais coisas, não é verdade? Mas você pode ter um desses em fantasia, construção imaginária, que importa? É com um coração GG que qualquer um estaria realizado. Encheria seus compartimentos de histórias e empilharia lendas da paixão. A gente pode tudo, sabe? Até fazer um feitiço desses, pode acreditar.
Deixe os receios de lado. Busque alternativas para ser feliz. Mas reserve a sala principal desse órgão tão romântico para exercitar o amor-próprio. Uma vez um amigo querido me disse: “Vá ser feliz! Quando somos felizes, somos capazes de fazer qualquer coisa”. E não é que ele estava certo. O restante são só delícias. E, por favor, vivam.
Conteúdo para perceber erros e saber me perdoar. Sim, porque primeiro temos que nos perdoar a si próprios.
Esse coração poderia ser dilatado o suficiente para abrigar as perdas, a saudade que tanto sinto de você quando desaparece de mim. Estocaria balas de oxigênio para abrandar a falta de fôlego quando não consegue expressar um pulsar sem se sentir fragilizado. Queria que fosse o coração maior do mundo para que depois do sofrer reagisse como um guerreiro.
Um coração assim me ajudaria bastante. Seria mais descontraída, seria mais eu mesma, quando encontrasse o único homem que me fez sentir mulher. Que se danem os dogmas de segurança dos cofres de minha alma. Eu explodiria todos.
‘Um coração tamanho GG imaginário povoa a minha mente. Meu espírito cria asas e voa em liberdade. Quero ser livre, mas espera um pouco... Eu sou livre. Quero apenas usufruir mais de minha liberdade.
Um coração maior do mundo poderia guardar munições para quando tivesse saudade de ti, homem da minha vida. Oferecer a vigor o necessário para abrir os olhos no despertar das manhãs e perceber que o tempo nada mudou o que sinto por você. Injetar mais sangue em meus passos para que quando caminhasse fosse mais firme em minhas decisões.
Se pudesse ter o coração maior do mundo espalharia o despudor, pregaria fotos em preto e branco do sexo rasgado que fizemos em suas paredes vermelhas. Nossa! Seriam muitas. Projetaria slides das nossas vontades absurdas. Desenharia seus lindos lábios no hall de entrada, assim sempre queimaria por dentro de desejo.
Meu coração pequenino já chorou demais, sabia? Molhou por inteiro o chão do quarto porque deixei escorrer as lágrimas que guardava em minhas entranhas. E por não suportar mais tantas coisas assim parou e decidiu per si viver feliz com os risos espontâneos que abandonei por preferir as lagrimas.
Queria soltar balões coloridos em um estacionamento. Espalhar nas ruas confetes multicores. Vestir minha cama com lençóis brancos e macios. Tudo para deitar ao seu lado. Um coração tamanho GG imaginário povoa a minha mente. Meu espírito cria asas e voa em liberdade. Quero usufruir mais de minha liberdade.
Meu coração pequenino está sendo pouco para alguém como eu. Sou intensa. O sorriso de prazer é o carimbo autenticado de minha vida e tenho sufocado o coitado. Tenho esperança em profusão, crio histórias, agendo datas que não existem. Sou pura essência feminina.
Como eu queria um coração enorme para agüentar tudo que sinto. Para que meus sentimentos não fossem mais espremidos como em mãos de gigante de terra encantada.
Meu coração GG me tiraria dos medos. Saberia seduzir você, meu amor. E me faria sentir um milhão de vezes mais a textura de sua pele em minhas mãos.
Também aumentaria os metros quadrados para abrigar mais coisas de nós dois. Para construir uma tenda e ficar deitada fazendo compressas de gelo em minh’alma, e deixar de molho em caldo frio o meu espírito. Esperar relaxada para sentir, de novo, o seu corpo no meu. O hálito que alucina e inebria.
Talvez vocês, também tenham essa vontade de alargar o coração para que pulse no peito feito louco. Não dar trégua às emoções. Amar. Sentir. Perdoar, se enraivecer. E vive com medo, não é mesmo? Nele caberiam muito mais coisas, não é verdade? Mas você pode ter um desses em fantasia, construção imaginária, que importa? É com um coração GG que qualquer um estaria realizado. Encheria seus compartimentos de histórias e empilharia lendas da paixão. A gente pode tudo, sabe? Até fazer um feitiço desses, pode acreditar.
Deixe os receios de lado. Busque alternativas para ser feliz. Mas reserve a sala principal desse órgão tão romântico para exercitar o amor-próprio. Uma vez um amigo querido me disse: “Vá ser feliz! Quando somos felizes, somos capazes de fazer qualquer coisa”. E não é que ele estava certo. O restante são só delícias. E, por favor, vivam.
domingo, 23 de agosto de 2009
Para o amigo Antônio Neto.
Hoje aconteceu um fato que me deixou bastante intrigada. Estava eu lá na escola, quieta trabalhando no estágio, quando a professora pede gentilmente que eu dirija uma atividade com os alunos.
O exercício tratava do significado dos nomes. Muito interessante, não fosse o primeiro nome Antônio! rsrsrsrs, dizia assim:
Antônio: inestimável, que não tem preço.
Não tive como não lembrar do meu amigo querido, e por fim, escrevi esta pequena declaração que para alguns pode não significar nada, mas o importante mesmo é o que significa pra mim! E quem o conhece sabe muito bem disso.
O seu retorno se presta agora a reflexão de valores. Alguns deles são óbvios, banais, superficiais. Um exemplo: acredito eu ter memória curta. Outro: ele também tem. Reflexões dessa natureza não são relevantes – aliás, nem irrelevantes-para o meu bem estar. A questão é tentar decifrar os sinais codificados.
À primeira vista ele reúne o que há de mais glorioso, a visão dos que o cercam certamente os remetem mais a embalagem do que ao conteúdo. Não a uma embalagem qualquer, mas sim a uma embalagem de alto nível. Jovem, muito bonito, bem vestido, firme, positivo, com amplo domínio, articulado, nossa são tantos adjetivos.
Eu diria que todo esse privilégio mostrou o fato de que o conteúdo é superior à embalagem. Um menino simples, apesar de seu refinamento. Caráter e personalidade fortes escondidos atrás da timidez, só aparentes. Qual o limite moral de quem já se apaixonou por alguém assim? De quem já amou alguém assim? Eis a solução. Mudanças de prioridades. Fase que simboliza a mudança estava produzindo frases coordenadas, agora produzo textos. Que retrato. Ele está superprotegido, quase avesso à competição e ao risco.
Não importam as razões que me levaram a esse fim. Talvez ele tenha seguido seu instinto, repetindo frases e gestos que pareciam comuns. Talvez ele tenha se deixado influenciar por experiências passadas. Visto o triunfo do conteúdo sobre a embalagem, ele nem soubesse direito o que estava fazendo, mas fez. E em meio a tantas sombras que marcam o seu retorno há um raio de luz que diz que é verdade. Ainda que por acaso, uma espécie rara, dulcíssimamente, na minha história.
O exercício tratava do significado dos nomes. Muito interessante, não fosse o primeiro nome Antônio! rsrsrsrs, dizia assim:
Antônio: inestimável, que não tem preço.
Não tive como não lembrar do meu amigo querido, e por fim, escrevi esta pequena declaração que para alguns pode não significar nada, mas o importante mesmo é o que significa pra mim! E quem o conhece sabe muito bem disso.
O seu retorno se presta agora a reflexão de valores. Alguns deles são óbvios, banais, superficiais. Um exemplo: acredito eu ter memória curta. Outro: ele também tem. Reflexões dessa natureza não são relevantes – aliás, nem irrelevantes-para o meu bem estar. A questão é tentar decifrar os sinais codificados.
À primeira vista ele reúne o que há de mais glorioso, a visão dos que o cercam certamente os remetem mais a embalagem do que ao conteúdo. Não a uma embalagem qualquer, mas sim a uma embalagem de alto nível. Jovem, muito bonito, bem vestido, firme, positivo, com amplo domínio, articulado, nossa são tantos adjetivos.
Eu diria que todo esse privilégio mostrou o fato de que o conteúdo é superior à embalagem. Um menino simples, apesar de seu refinamento. Caráter e personalidade fortes escondidos atrás da timidez, só aparentes. Qual o limite moral de quem já se apaixonou por alguém assim? De quem já amou alguém assim? Eis a solução. Mudanças de prioridades. Fase que simboliza a mudança estava produzindo frases coordenadas, agora produzo textos. Que retrato. Ele está superprotegido, quase avesso à competição e ao risco.
Não importam as razões que me levaram a esse fim. Talvez ele tenha seguido seu instinto, repetindo frases e gestos que pareciam comuns. Talvez ele tenha se deixado influenciar por experiências passadas. Visto o triunfo do conteúdo sobre a embalagem, ele nem soubesse direito o que estava fazendo, mas fez. E em meio a tantas sombras que marcam o seu retorno há um raio de luz que diz que é verdade. Ainda que por acaso, uma espécie rara, dulcíssimamente, na minha história.
"Queridíssimos",
Muito complicada a vida de blogueira, ainda tô aprendendo. A partir de agora vou encontrar um tempinho para escrever aqui. Santo de casa... Vai tudo entrando na frente. Nas últimas semanas passei por uns dias bastante nublados, vez por outra ainda o sol tentou sair, timidamente, não conseguiu, mas tentou!
Gostaria de agradecer a todos que de maneira direta e indireta contribuíram com muito carinho e com muito apoio a minha família. Primeiro, a minha mãe ficou doente. E bota aflição nisso! Afinal, são oito filhos, mas quem cuida, e principalmente quem gasta?! Minha mãe é uma senhorinha com seus 75 anos, precisa de muitos cuidados, muito mesmo. E há quem não acredite na idade dela, deve ser pelo excesso de energia vital que transborda por seus poros. Quem a conhece sabe muito bem disso. Mas o medo e o susto nos pegaram de jeito. Família é isso, preocupações à parte, mas muito cuidado em torno da nossa matriarca. A minha amabilíssima mamãe. A vida é muito frágil.
E quando finalmente tudo estava aparentemente bem, eis que o meu tio começa a sofrer. E o sofrimento foi geral. Fiquei impressionada com a atitude que o meu irmão mais velho teve, levou - o ao hospital, passou a noite toda com ele, e depois ficou em sua casa até ter certeza de que nada de mais grave aconteceria. É por essas e outras coisas que ele é tão querido. Meu pai postiço. Essa situação de quase perda da vida de nosso tio foi também muito difícil, em uma família de “gerontes”, seria normal esperar pelo pior, mas não é. As perdas são sempre dolorosas. Meu tio chegou a ver aquela luz branca no fim do túnel, e mais uma vez graças ao nosso bom Deus, ele está se recuperando bem.
E quanto a mim, já estou melhorzinha. Ah! Flávia e Naiara, Naiara e Flávia, minhas grandes amigas, que suportam comigo todas as minhas dores, até quando não podem dão um jeitinho. Obrigada! Muitíssimo obrigada.
Já estamos praticamente no final do período na faculdade, um período que se arrasta lentamente, agora só falta mais um ano. Essa semana terminou a primeira parte do estágio, pra minha surpresa o estágio foi incrível, descobri que tenho talento pra ser professora! Chegar à escola às 7h da manhã e ouvir aquelas vozes em coro, afinadíssimas: BOM DIA PROFESSORA! Nossa, me arrepiou até a espinha, minha experiência com eles foi maravilhosa. Como disse Pach Adamns “faça o melhor do que se está fazendo”.
Há alguns dias o Instituto Anavilhanas trouxe para Manaus a palestra do professor Sérgio Nogueira sobre a Reforma Ortográfica. Interessantíssima! Valeu a pena cada minuto dedicado a isso. Serviu também pra que eu revisse alguns conceitos pessoais que já se haviam perdido. Ah! Lembrar que a reforma é na ortografia, ou seja, na escrita, não na pronúncia! Infelizmente nascemos no Brasil, falamos e escrevemos português, é necessário estudar essas coisas. Recebi um gentil convite do Edmar e da Naiara Rosas para um jantar com o professor, divertido, mente aberta, honesto, bom papo, que venham outras.
Ontem assisti a um programa de televisão, que por acaso eu não gosto e por isso não assisto nunca, mas ontem assisti- o. E curiosamente um dos assuntos abordados foi do meu interesse! A apresentadora fez uma entrevista muito especial com o mestre de Yôga Hermógenes, e ele discorreu na sua mais completa simplicidade e humildade sobre os ensinamentos dessa prática milenar da qual sou adepta há um ano e que tão bem faz a minh’alma. Ele falou sobre o livro “Mergulho na paz”, que fala sobre fé. Fé é existencial, porque nos projeta no mundo tal qual devemos ser, meu próximo livro de cabeceira que espera na estante de casa para ser saboreado logo, logo.
Então resolvi dar uma mexida na minha vida. Mudança de cenário agora não dá, mas nos caminhos sim. Tudo novo! Será uma mexida boa e todos sairão ganhando, espero. Há que se ter coragem para mexer em time que ganha. Mas confio no meu taco. Viva a novidade! Não quero ainda falar pra não estragar. Apenas admito que tenha chorado rios de emoção. E não sou a única, quem passa por isso comigo chora e ri e chora e... Paro por aqui, com uma citação que muito me confortou esta manhã, agora preciso escrever mais um capítulo de minha vida que necessita de ajustes.
“Jogaram uma pedra na tranqüilidade do lago, ele respondeu sorrindo ondulações. E voltou a ser tranquilo.”
Gostaria de agradecer a todos que de maneira direta e indireta contribuíram com muito carinho e com muito apoio a minha família. Primeiro, a minha mãe ficou doente. E bota aflição nisso! Afinal, são oito filhos, mas quem cuida, e principalmente quem gasta?! Minha mãe é uma senhorinha com seus 75 anos, precisa de muitos cuidados, muito mesmo. E há quem não acredite na idade dela, deve ser pelo excesso de energia vital que transborda por seus poros. Quem a conhece sabe muito bem disso. Mas o medo e o susto nos pegaram de jeito. Família é isso, preocupações à parte, mas muito cuidado em torno da nossa matriarca. A minha amabilíssima mamãe. A vida é muito frágil.
E quando finalmente tudo estava aparentemente bem, eis que o meu tio começa a sofrer. E o sofrimento foi geral. Fiquei impressionada com a atitude que o meu irmão mais velho teve, levou - o ao hospital, passou a noite toda com ele, e depois ficou em sua casa até ter certeza de que nada de mais grave aconteceria. É por essas e outras coisas que ele é tão querido. Meu pai postiço. Essa situação de quase perda da vida de nosso tio foi também muito difícil, em uma família de “gerontes”, seria normal esperar pelo pior, mas não é. As perdas são sempre dolorosas. Meu tio chegou a ver aquela luz branca no fim do túnel, e mais uma vez graças ao nosso bom Deus, ele está se recuperando bem.
E quanto a mim, já estou melhorzinha. Ah! Flávia e Naiara, Naiara e Flávia, minhas grandes amigas, que suportam comigo todas as minhas dores, até quando não podem dão um jeitinho. Obrigada! Muitíssimo obrigada.
Já estamos praticamente no final do período na faculdade, um período que se arrasta lentamente, agora só falta mais um ano. Essa semana terminou a primeira parte do estágio, pra minha surpresa o estágio foi incrível, descobri que tenho talento pra ser professora! Chegar à escola às 7h da manhã e ouvir aquelas vozes em coro, afinadíssimas: BOM DIA PROFESSORA! Nossa, me arrepiou até a espinha, minha experiência com eles foi maravilhosa. Como disse Pach Adamns “faça o melhor do que se está fazendo”.
Há alguns dias o Instituto Anavilhanas trouxe para Manaus a palestra do professor Sérgio Nogueira sobre a Reforma Ortográfica. Interessantíssima! Valeu a pena cada minuto dedicado a isso. Serviu também pra que eu revisse alguns conceitos pessoais que já se haviam perdido. Ah! Lembrar que a reforma é na ortografia, ou seja, na escrita, não na pronúncia! Infelizmente nascemos no Brasil, falamos e escrevemos português, é necessário estudar essas coisas. Recebi um gentil convite do Edmar e da Naiara Rosas para um jantar com o professor, divertido, mente aberta, honesto, bom papo, que venham outras.
Ontem assisti a um programa de televisão, que por acaso eu não gosto e por isso não assisto nunca, mas ontem assisti- o. E curiosamente um dos assuntos abordados foi do meu interesse! A apresentadora fez uma entrevista muito especial com o mestre de Yôga Hermógenes, e ele discorreu na sua mais completa simplicidade e humildade sobre os ensinamentos dessa prática milenar da qual sou adepta há um ano e que tão bem faz a minh’alma. Ele falou sobre o livro “Mergulho na paz”, que fala sobre fé. Fé é existencial, porque nos projeta no mundo tal qual devemos ser, meu próximo livro de cabeceira que espera na estante de casa para ser saboreado logo, logo.
Então resolvi dar uma mexida na minha vida. Mudança de cenário agora não dá, mas nos caminhos sim. Tudo novo! Será uma mexida boa e todos sairão ganhando, espero. Há que se ter coragem para mexer em time que ganha. Mas confio no meu taco. Viva a novidade! Não quero ainda falar pra não estragar. Apenas admito que tenha chorado rios de emoção. E não sou a única, quem passa por isso comigo chora e ri e chora e... Paro por aqui, com uma citação que muito me confortou esta manhã, agora preciso escrever mais um capítulo de minha vida que necessita de ajustes.
“Jogaram uma pedra na tranqüilidade do lago, ele respondeu sorrindo ondulações. E voltou a ser tranquilo.”
Mestre Hermógenes
"É apenas um texto!"
-De onde você escreve tem vista?
-Eu vejo o horizonte.
-Então deve ser por isso que você não quer publicar os seus textos...
Foi assim que o Antônio, um amigo querido, engoliu minha resistência inicial em publicar estes textos. Eu cheia de receios, tentando explicar por que não ia dar, ele me sai com essa. Ao longo dos anos havia percebido que os que escrevem em local fechado gostam de mostrar suas coisas, e quem o faz olhando pro mundo guarda na gaveta. Pois, como se vê minha resistência encolheu, e não foi preciso tirar o horizonte ali da frente. Mas o fato é que, quando a cabeça encrenca e vem o boicote avisando que nunca mais vou ter uma idéia na vida, fecho a janela e pronto... As palavras vão chegando. Será que a beleza nos dispersa e nos põe bobos, a contemplá-la? Será que ela rouba a vaidade de querer se exibir pro outro? Será que a janela do Paulo Coelho dá pra lixeira pública? Não, não pode ser uma questão estética. É questão de visão, simplesmente. Feio ou bonito, de um empresário em ascensão ou de um universitário, tanto faz. Quando se escreve olhando o mundo nós não temos como negar que tudo foi tirado dali mesmo, e talvez por pudor não queiramos repetir para ele o que o mundo mesmo nos mostrou. Pode ser. Vejamos: Ataíde Junior - por que não? Kafka, Edgar Allan Poe? Nenhum era cego. Cego é aquele que não quer ver. Bom tem o Ray Charles, mas não que ele não quisesse, ele nunca pôde... Opa, ele é músico, fuga do tema!
Avaliando pelas entrelinhas, o cara que mora em ''zonas'' da vida vai aos sábados para baile funk, no Rio de Janeiro, claro; enquanto, em Manaus, o morador do Vieiralves, peraí nem precisa morar neste bairro, teoricamente, deveria ficar em casa se protegendo da violência, mas em Manaus isso não acontece - em Manaus o funk é da elite. Também, acontece. E o outro que acabou de construir uma bela piscina no jardim, três meses se passam, fim da novidade, ele se manda pro interior. Também rola, requinte de rico é casa de pescador em sítio deserto com luz de lampião.
Você prefere assistir a uma peça em um grande teatro ou no teatrinho da esquina? Se for ao da esquina e você estiver disposto mesmo a vê-la, saiba que seu ator deu pra fazer espetáculos em micro casas. Com o mundo aos expectadores pés, ele prefere, agora, encantar a minoria da minoria. Ele e outros deuses também.
No quesito sexo, sempre indispensável em considerações com estas, aquela transa escondidinha no quarto dos fundos é menos excitante que a da suíte confortável? Acho que não. Acho até que tem gente ralando pra conquistar esse tal conforto, que depois fica ali esparramado e tenso gastando neurônio em papo cabeça, enquanto os da ''caminha'' sobrepõem o desejo em baixas fantasias de alta voltagem.
Será?
Será que é mesmo assim? Será que enquanto minhas possibilidades aumentam o encanto retrai? E as idéias encurtam? Será que o horizonte me leva pra dentro de mim? Será que me mudo pro outro lado da cidade? Será que ele volta se eu o trocar por um total flex? Será que o Luís Fernando Veríssimo e seus ''... Bons dias sussurrados'' tem tantos serás? Será que consigo uma última frase que responda a tantas perguntas?
-Eu vejo o horizonte.
-Então deve ser por isso que você não quer publicar os seus textos...
Foi assim que o Antônio, um amigo querido, engoliu minha resistência inicial em publicar estes textos. Eu cheia de receios, tentando explicar por que não ia dar, ele me sai com essa. Ao longo dos anos havia percebido que os que escrevem em local fechado gostam de mostrar suas coisas, e quem o faz olhando pro mundo guarda na gaveta. Pois, como se vê minha resistência encolheu, e não foi preciso tirar o horizonte ali da frente. Mas o fato é que, quando a cabeça encrenca e vem o boicote avisando que nunca mais vou ter uma idéia na vida, fecho a janela e pronto... As palavras vão chegando. Será que a beleza nos dispersa e nos põe bobos, a contemplá-la? Será que ela rouba a vaidade de querer se exibir pro outro? Será que a janela do Paulo Coelho dá pra lixeira pública? Não, não pode ser uma questão estética. É questão de visão, simplesmente. Feio ou bonito, de um empresário em ascensão ou de um universitário, tanto faz. Quando se escreve olhando o mundo nós não temos como negar que tudo foi tirado dali mesmo, e talvez por pudor não queiramos repetir para ele o que o mundo mesmo nos mostrou. Pode ser. Vejamos: Ataíde Junior - por que não? Kafka, Edgar Allan Poe? Nenhum era cego. Cego é aquele que não quer ver. Bom tem o Ray Charles, mas não que ele não quisesse, ele nunca pôde... Opa, ele é músico, fuga do tema!
Avaliando pelas entrelinhas, o cara que mora em ''zonas'' da vida vai aos sábados para baile funk, no Rio de Janeiro, claro; enquanto, em Manaus, o morador do Vieiralves, peraí nem precisa morar neste bairro, teoricamente, deveria ficar em casa se protegendo da violência, mas em Manaus isso não acontece - em Manaus o funk é da elite. Também, acontece. E o outro que acabou de construir uma bela piscina no jardim, três meses se passam, fim da novidade, ele se manda pro interior. Também rola, requinte de rico é casa de pescador em sítio deserto com luz de lampião.
Você prefere assistir a uma peça em um grande teatro ou no teatrinho da esquina? Se for ao da esquina e você estiver disposto mesmo a vê-la, saiba que seu ator deu pra fazer espetáculos em micro casas. Com o mundo aos expectadores pés, ele prefere, agora, encantar a minoria da minoria. Ele e outros deuses também.
No quesito sexo, sempre indispensável em considerações com estas, aquela transa escondidinha no quarto dos fundos é menos excitante que a da suíte confortável? Acho que não. Acho até que tem gente ralando pra conquistar esse tal conforto, que depois fica ali esparramado e tenso gastando neurônio em papo cabeça, enquanto os da ''caminha'' sobrepõem o desejo em baixas fantasias de alta voltagem.
Será?
Será que é mesmo assim? Será que enquanto minhas possibilidades aumentam o encanto retrai? E as idéias encurtam? Será que o horizonte me leva pra dentro de mim? Será que me mudo pro outro lado da cidade? Será que ele volta se eu o trocar por um total flex? Será que o Luís Fernando Veríssimo e seus ''... Bons dias sussurrados'' tem tantos serás? Será que consigo uma última frase que responda a tantas perguntas?
"Férias Perfeitas"
A gente se ilude pensando que a palavra “férias” significa largar o trabalho e atravessar a cidade inteira para ver todos os filmes, exposições em Manaus, quem dera, e cair de boca nas compras. Mas que nada, férias de verdade mesmo seriam se todos os momentos do dia fossem só prazeres - o que convenhamos, não é fácil.
Nada de aproveitar e ir ao médico para trocar o grau dos óculos, fazer uma limpeza de pele ou um check-up; dentista é um caso a pensar. Para cuidar dessas coisas desagradáveis, você tem longos 11 meses do ano.
Para que as férias sejam mesmo ideais, é preciso que o universo conspire a seu favor, e essa é a parte mais difícil, apesar do que afirma Paulo Coelho, ah quem liga para o que ele diz. A família, por exemplo, só deveria aparecer para dar boas notícias, e a visita dela nas férias só nos remete a delicadeza, paciência, habilidade política e muito amor, e a minha é um bom exemplo para se pensar, afinal onde há um amor intenso, há uma família. Alguém teria de se encarregar de censurar os jornais, escondendo todas as tragédias, a fim de afastar qualquer pensamento que não fosse de alegria, fé e esperança.
Nesse mês, seria permitido parar o carro em fila dupla às 6 da tarde em qualquer lugar da cidade para comprar uma sandália nova, ou então entrar numa avenida bem movimentada, na contra mão, e ainda por cima de moto! Melhor deixar isso pra lá. E o governo baixaria uma medida provisória determinando que quem está de férias não paga conta nenhuma: o gás, a luz, o telefone...principalmente o telefone, o aluguel, o médico, o cabeleireiro, o supermercado, todos sem exceção respeitariam o nosso direito à felicidade e a despreocupação. Não seria um sonho?
Tem mais: ficaríamos liberadas da academia, e um dispositivo especial filtraria os telefonemas e só liberaria os chamados de pessoas muito queridas. Não choveria tanto, e o sol tinha de ser quente o suficiente para que todas nós pudéssemos nos exibir com as nossas sutis marquinhas de biquíni, como nós adoramos.
Durante esse mês, os amigos estariam amando e sendo muito amados, sem problemas com dinheiro, e os mercados estariam cheios de mangas, morangos e bananas... e cajus, e acerolas -tudo ao mesmo tempo. Os ladrões e assassinos dariam uma trégua a quem estivesse de férias, a seleção do Brasil jogaria domingos seguidos como em uma final de copa (e venceria sempre). Seriam 30 dias em que não se pegaria um só resfriado. Aquele antigo namorado apareceria com flores dizendo que você foi à mulher da vida dele, o que é sempre muito bom de ouvir. As crianças não nos dariam preocupações.
E não se faria uma só mala, não se pisaria num só aeroporto, não se compraria um só euro. Essas seriam as melhores férias do mundo - ou a gente não merece tanto?
Nada de aproveitar e ir ao médico para trocar o grau dos óculos, fazer uma limpeza de pele ou um check-up; dentista é um caso a pensar. Para cuidar dessas coisas desagradáveis, você tem longos 11 meses do ano.
Para que as férias sejam mesmo ideais, é preciso que o universo conspire a seu favor, e essa é a parte mais difícil, apesar do que afirma Paulo Coelho, ah quem liga para o que ele diz. A família, por exemplo, só deveria aparecer para dar boas notícias, e a visita dela nas férias só nos remete a delicadeza, paciência, habilidade política e muito amor, e a minha é um bom exemplo para se pensar, afinal onde há um amor intenso, há uma família. Alguém teria de se encarregar de censurar os jornais, escondendo todas as tragédias, a fim de afastar qualquer pensamento que não fosse de alegria, fé e esperança.
Nesse mês, seria permitido parar o carro em fila dupla às 6 da tarde em qualquer lugar da cidade para comprar uma sandália nova, ou então entrar numa avenida bem movimentada, na contra mão, e ainda por cima de moto! Melhor deixar isso pra lá. E o governo baixaria uma medida provisória determinando que quem está de férias não paga conta nenhuma: o gás, a luz, o telefone...principalmente o telefone, o aluguel, o médico, o cabeleireiro, o supermercado, todos sem exceção respeitariam o nosso direito à felicidade e a despreocupação. Não seria um sonho?
Tem mais: ficaríamos liberadas da academia, e um dispositivo especial filtraria os telefonemas e só liberaria os chamados de pessoas muito queridas. Não choveria tanto, e o sol tinha de ser quente o suficiente para que todas nós pudéssemos nos exibir com as nossas sutis marquinhas de biquíni, como nós adoramos.
Durante esse mês, os amigos estariam amando e sendo muito amados, sem problemas com dinheiro, e os mercados estariam cheios de mangas, morangos e bananas... e cajus, e acerolas -tudo ao mesmo tempo. Os ladrões e assassinos dariam uma trégua a quem estivesse de férias, a seleção do Brasil jogaria domingos seguidos como em uma final de copa (e venceria sempre). Seriam 30 dias em que não se pegaria um só resfriado. Aquele antigo namorado apareceria com flores dizendo que você foi à mulher da vida dele, o que é sempre muito bom de ouvir. As crianças não nos dariam preocupações.
E não se faria uma só mala, não se pisaria num só aeroporto, não se compraria um só euro. Essas seriam as melhores férias do mundo - ou a gente não merece tanto?
Ao recomeço
E aí, beleza?! Quais são as novidades?! Não venha me dizer: nenhuma! Por que tanto mistério? Ando curiosa para saber o que você pretende comigo.
Não quero parecer ansiosa, embora eu seja, tanto que tenho até crises de gastrite, mas estou contando os dias para essa agonia chegar ao fim.
Para começarmos com o pé direito, como você gosta, vou comprar uma roupa nova, para esperá-lo lá na entrada; faço questão de que me encontre linda. E brindaremos à nossa saúde no momento em que cruzarmos os olhos. Feliz - é assim que eu o quero e, farei tudo o que estiver ao meu alcance para que isso seja possível. Se dependesse de mim, sua estadia entre nós seria uma alegria após a outra. Receio, porém, que de mim pouco dependa.
Não é por ser final de ano que me apeguei a você, afinal estamos sempre mantendo contato, você sabe a minha vida é muito intensa. É uma pena que você e a decepção não tiveram chance de se encontrar, pois ela, que já estava de saída, poderia ter-lhe contado como me marcou a corja da corja que aqui ela conheceu - ou ainda a gente muito pior e que depois ainda se fez de vítima.
Pois bem, fora essas e mais uma meia dúzia de prováveis inconveniências, não acredito em outros problemas no decorrer de sua presença. Na verdade, com a quantidade de festas e comemorações com que se preocupar, não vá deixar-se passar despercebido.
Quando começarmos a nos restabelecer das festas de sua chegada, já estaremos no carnaval. Depois, vem o feriado da semana Santa, e aí, lembra: abril é o mês da mudança! E você fará parte disso novamente.
Falando nisso, gostaria de dizer que não tenho esperanças em relação ao que você vai me trazer, mas tenho. Principalmente porque você sabe de tudo o que eu preciso.
Sabe também que eu sou fã de surpresas, então se esforce para me surpreender. Se por acaso me trouxer algumas más notícias, tudo bem, mas tente não ser abrupto. Uma vez que a resolução de vários problemas está fora do seu alcance, não vou me aborrecer caso algo não venha acontecer como eu esperava.
Não quero parecer ansiosa, embora eu seja, tanto que tenho até crises de gastrite, mas estou contando os dias para essa agonia chegar ao fim.
Para começarmos com o pé direito, como você gosta, vou comprar uma roupa nova, para esperá-lo lá na entrada; faço questão de que me encontre linda. E brindaremos à nossa saúde no momento em que cruzarmos os olhos. Feliz - é assim que eu o quero e, farei tudo o que estiver ao meu alcance para que isso seja possível. Se dependesse de mim, sua estadia entre nós seria uma alegria após a outra. Receio, porém, que de mim pouco dependa.
Não é por ser final de ano que me apeguei a você, afinal estamos sempre mantendo contato, você sabe a minha vida é muito intensa. É uma pena que você e a decepção não tiveram chance de se encontrar, pois ela, que já estava de saída, poderia ter-lhe contado como me marcou a corja da corja que aqui ela conheceu - ou ainda a gente muito pior e que depois ainda se fez de vítima.
Pois bem, fora essas e mais uma meia dúzia de prováveis inconveniências, não acredito em outros problemas no decorrer de sua presença. Na verdade, com a quantidade de festas e comemorações com que se preocupar, não vá deixar-se passar despercebido.
Quando começarmos a nos restabelecer das festas de sua chegada, já estaremos no carnaval. Depois, vem o feriado da semana Santa, e aí, lembra: abril é o mês da mudança! E você fará parte disso novamente.
Falando nisso, gostaria de dizer que não tenho esperanças em relação ao que você vai me trazer, mas tenho. Principalmente porque você sabe de tudo o que eu preciso.
Sabe também que eu sou fã de surpresas, então se esforce para me surpreender. Se por acaso me trouxer algumas más notícias, tudo bem, mas tente não ser abrupto. Uma vez que a resolução de vários problemas está fora do seu alcance, não vou me aborrecer caso algo não venha acontecer como eu esperava.
Traga o que trouxer- fique tranquilo - você será recebido com um show pirotécnico. Pois sua chegada, sempre pontual e garantida, com sua sinceridade, sempre tão ampla e verdadeira, renova em mim a esperança que vai - se embora, um pouco, a cada dia. E ai, ai, ai, já está chegando à hora.
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