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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Parte II

A gente se conheceu e foi épico. Desde o começo, desprezo e exaspero seguidos de pausas silenciosas, quebradas por sussurros de desejos.
Eu poderia ter sido pra você aquela amiga legal, que fica pelos cantos comendo migalhas, fingindo aceitar as suas queixas, mas não, eu escolhi ser eu mesma. Ainda que eu me arriscasse a perdê-lo. Tudo o que eu fiz pra você foi repleto de dignidade. Tudo o que eu fiz pra você foi pensando em te fazer feliz. Você não é só meu amigo, você é o homem da minha vida. Você é a minha vida. E eu quero a minha vida de volta.
Ontem à noite, eu pensei em você, e chorei um choro genuíno, não o fiz propositalmente, chorei porque o processo pelo qual me tornei mulher foi um processo doloroso. Chorei por não ser mais criança. Chorei porque os meus olhos se abriram para esta realidade - para o seu egoísmo, para o seu amor por outra pessoa, para minha criatividade insaciável que não se preocupa com outra e consegue ser suficiente a si mesma. Chorei porque não posso mais acreditar e, adoro acreditar. Chorei porque daqui por diante chorarei menos. Chorei porque senti minha dor e ainda não estou acostumada à presença dela.
Contudo, só posso agradecê-lo. Porque graças a você, não estou sendo esmagada e não perdi a fé em mim.
Naquele dia infeliz, o último em nos falamos grosseiramente e por um canal impessoal, a dor ki eu senti foi tão grande. Uma parte de mim foi arrancada a solavancos. Foi a segunda maior dor que eu já senti.
Mas esse nó de dor sufocante desapareceu. Aceitei que a esperança cedesse à realidade. E aceitei isso racionalmente, não porque precisava aceitar, mas para seguir em frente.
Portanto, não me odeie. Não me despreze. Não me maltrate. Não me chantageie. Não me agrida. Não me machuque mais. Não mais. Você não tem motivos para isso.
Eu estou confessando tudo isso a você.
Eu jamais vou abandoná-lo, porque você me inspira para o bem e, para os meus sentidos. Você não está sozinho. Eu estou aqui bem pertinho de você, do seu lado.
Tenho pensado em você em momentos em que nenhuma mulher sã e normal deveria pensar.
O amor para mim é muito coerente, quando eu amo, eu amo pra sempre. Eu não estava blefando quando disse que o amaria até eu ficar velhinha, velhinha e a vida, enfim, me separasse de você. Parece um discurso romântico, mas não é. É real, e é para você. Não tenha medo dele, nem sinta escárnio dele, da mesma forma que eu
não tenho medo de sentir o amor que eu sinto por você. Porque eu amo de verdade. Eu não tenho medo do que você representa pra mim, porque você é um homem bom. E eu quero receber de você tudo o que você tem de melhor. Eu mereço isso.
Palavras e datas tem muito significado pra mim. Por isso achei desnecessário esperar o natal, o aniversário ou outra data seja ela qual for para fazer um balanço e falar o que é verdadeiramente essencial de mim para você.
Espero do fundo do meu coração que essas palavras não o tenham machucado, porque não foram pensadas para feri-lo. Mas sim para acariciá-lo com a ponta dos dedos. Foram escritas a fim de nos dá uma chance. Elas são como uma mão que alcança-e não um pé que esmaga. Porque a mão que alcança exige mais coragem, afinal, alcançar é sempre um risco-e esmagar tem um final previsível.
O dia de hoje é uma experiência radical de nascimento. A gente, no fundo, tem medo de nascer, pois nascer e saber-se vivo - e, como tal, estar exposto à morte. Superei esse medo quando lembrei a singularidade do seu olhar que é só seu. Percebi que você está em extinção, só existe uma pessoa igual a vc no mundo, vc mesmo. Percebi, também, com essa lembrança que amá-lo representa essa singularidade. E para alcançá-la em sua integridade, precisaria de muita coragem. Teria de resistir ao conforto de uma vida de lugar-comum. Que eu me sinto pronta para viver.
Não o tenho mais perto de mim e, por isso as minhas letras são mortas. São palavras que nasceram luminosas e morreram pela repetição, já que a morte de uma palavra é o seu esvaziamento de sentido. Agarrei-me aos lugares comuns. E matei-os um pouco a cada dia, matei a expressão de você, para mim, no mundo.
Tentei me apegar ao mundo das frases feitas, para não deixar que os meus sentimentos novos sobre você não saíssem de lá. Mas as frases feitas são apenas cascas de palavras-, não ameaçam a linguagem de ninguém - nem o funcionamento do todo - com as palavras mais subversivas e ameaçadoras para este mundo: as próprias.
Quando transformo meus pensamentos íntimos em palavras para você, tenho sempre a possibilidade de nascer. E se renuncio ao nascimento, ao trocar a possibilidade de lhe dizer o que sinto através de palavras, pelo silêncio, ao mundo das frases feitas, aceito a morte antes de viver.
Fiquei pensando nisso e, pareceu-me que os lugares – comuns vão muito além das palavras. A gente pode transformar nossa vida inteira. Não basta apenas pensar em você antes de escrever, na tentativa de criar algo seu – antes de repetir a vida de outros.
Do mesmo modo que é muito fácil botar no mundo o primeiro chavão, que para alguns, vem à cabeça; também é mais fácil – e mais aceito- porque a maioria vai vivendo e repetindo velhas vidas que aparentemente já deram certo e não incomodam ninguém. Não é ruim ou errado, não se trata disso. Porque não vivermos a vida que nos transforma desde sempre em alguém em extinção. Aquela que busca a singularidade do que é nosso. Aquela sujeita ao erro, ao imprevisto, ao descontrole. Ao novo.
Eu não estou tentando arrancar nada de ninguém. Apenas pergunto, suavemente: é bom ficar perto de mim? É boa a difícil alegria que cada centímetro do meu corpo se dispõe a proporcioná-lo em seu mais extraordinário sentido?
Amá-lo é fascinante. É consumir-se. É queimar os carvões do tempo que me constitui. É um garimpo que com incessante coragem eu permito que o gosto do seu ouro possa fulgir em meus lábios. Assim a minha vida não tem garantias. Tem vida.
Procurei-o de novo. Não pela convicção de um não, mas em busca de um possível sim. Porque eu precisava interromper o fluxo inexorável rumo a uma vida feita de uma sucessão de frases feitas.
Que encrenca boa essa minha procura por você representa.
Meu coração se apertou de amor pela grandeza de tê-lo de volta diante do parapeito do mundo
Isso tudo é um convite para tomarmos um vinho e falarmos sobre a vida. Mas um vinho que não dê dor de cabeça no dia seguinte.
A minha inquietação segue latejando, às vezes doendo muito – e me carregando para vários lugares, sempre usando qualquer pretexto para buscá-lo: uma palavra, um livro, um filme, uma pessoa, um esquecimento, uma solidão.
Qualquer pedaço de madeira em que eu possa me agarrar para não morrer afogada pelos meus comportamentos, para que a minha ânsia de vida me leve sempre a viver. Com todos os ganhos, perdas, dores, fomes que fazem parte da minha vida não escrita.
Eu não quero mais fazer parte da sua vida como um ser reduzido a um personagem a si mesmo, ainda que eu seja um bom personagem.
Foi até aqui que o meu delírio me trouxe, para ficar mais perto de você. Para poder nascer. E me descobrir viva. Radicalmente viva.

Aguardo ansiosamente a revisão do nosso encontro.

Suely Carvalho.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Carta ao meu Amor: A última carta.


Aguardem, carta sob resgate!

Carta ao meu Amor: Espero que gostes.

As cartas que eu escrevo para você devem ser de uma simplicidade muito evidente. Uma vez que não passam de meras frases grafadas em um pedaço de papel. E após a sua leitura tudo segue com a mesma simplicidade, como se não pudesse ser de outro modo- qualquer pessoa podia ter inventado essas frases, penso eu que você pensa.

 Ler é um segredo. Você sabe ler, então por que não percebe o que está pra lá da superfície do papel, já que este apenas dissimula sem realmente esconder, como um pedaço de vidro transparente, o que está escrito através das linhas.

Eu leio muitas coisas, algumas impossíveis. Um exemplo basta olhá-lo alguns segundos para ler o que você está sentindo. Posso até lê-lo por inteiro. Posso até ouvir os seus pontapés no ar, por achar que mais uma vez errei, e gritando, e batendo com os pés no chão: não, não, não!

Às vezes eu saio, caminho na rua, lendo apenas mentalmente. Ando pelo meio das casas e leio, leio, e ninguém dá pontapés nem grita. As arvores balançam, mas não me interrompem. Só quando chovo eu me abrigo debaixo de uma varanda ou no vão de uma porta, paro mentalmente de ler e fecho o livro: você.

Então ouço a chuva. Ouvir também é uma absoluta atenção as coisas. Tudo fica suspenso no vazio. E depois o som acontece: a chuva, o vento. O vento nas folhas, no caminho de terra, nos telhados, na chuva. Agora eu ouço a chuva, formas fugidias de água.

Mas ouvir não é separado de ver, sentir ou entender. Nem se pode ler, de cada vez, uma coisa isolada, sem dar conta de que há em volta um contexto. Se bem que é a percepção do contexto que depois faz ressaltar, exageradamente nítida nos contornos, cada coisa em si.

E também não se pode, e não se quer ouvir declarações de amor uma só vez, é preciso ouvir mil vezes, depois disso, as muitas vozes do que eu escrevo. E depois o silêncio. E mesmo o silêncio faz parte de ouvir- o silêncio entre uma coisa e outra, a respiração ou a pausa, antes que outra coisa aconteça. Ouça e deixe o mundo das minhas palavras entrarem em si. Fique indefeso, apenas escute.

Assim, o som da minha voz segue seu curso e deixa de existir separadamente, torna- se parte do que acontece. O que também é um risco. Minha intenção de algum modo é estilhaçá-lo, fazê-lo sair de si mesmo e arrastá-lo para um estádio indiferenciado, não humano, contra o qual o escrever finalmente triunfa.

Um triunfo imperfeito, contudo, o livro tem sempre de recomeçar, de acontecer de novo, para que o caos não se instale. Enquanto dura (mas nunca dura para sempre), a leitura que eu faço de você é uma forma de ultrapassar o caos, obrigando-o a caber numa medida. Ler você talvez seja isso: tomar parte na leitura entre a medida e o caos.

Ainda o amo. Cada vez mais. Como se o amor fosse, agora, a evidente manifestação da humanidade e das suas relações ambíguas com os mistérios de que nada se sabe.

Eu ainda julgo compreender o perigo de toda essa energia desencadeada e solta, como um rio extravasando o leito, à mercê da qual fico sem defesa. Em um texto, ao contrario do que você pensa as frases não acontecem ao acaso, remetem umas para as outras, formam sempre um conjunto. Basta procurar o que já tinha sido encontrado, colocar as vírgulas no lugar certo, e quando tiver alguma hesitação procurar reconstituir o que falta antes de olhar, ler novamente- como se o papel fosse um tecido eventualmente rasgado, que se pode tecer de novo, no lugar da falha. Memorizar tudo o que você diz é muito diferente do que as pessoas pensam. Mas guardo essa idéia para mim. E depois, esqueço tudo. Lembrar só vai me fazer sofrer, assim como guardo para mim as suas descobertas.

Jamais diria a alguém, por exemplo, que posso lê-lo, olhando-o simplesmente. Parece ainda mais perigoso falar demasiado, tenho medo de que as coisas que penso possam se voltar contra mim, uma vez ditas. Mas a vontade que eu tenho de que tudo saiba é maior que o medo.

Embora me encha de perguntas: de onde você vem? Veio de lá? Veio para mim? Por que você quer acreditar e quer que eu acredite que o meu amor não é retribuído. Ninguém o inventou, estava lá simplesmente lá, desde sempre. Mas o que significa desde sempre? E onde é lá?

E o ritmo? O barulho deste bumbo cadenciado que não para nem pra descansar. Do corpo, talvez, do coração batendo. Houve um momento em que me soltei do corpo e me tornei uma coisa separada. Houve um momento em que eu comecei a existir por mim mesma. E essa idéia me pareceu vertiginosa. Mas não contei a ninguém, estava atenta ao perigo de acontecer a mim o que supostamente a você aconteceu.

Pediu-me que fosse desbravar noutros mundos, e deixá-lo em paz dentro do seu, e assim o fiz, mas pelo que eu sei o seu apelo não o convenceu a si mesmo.

Eu posso explorar o mundo em você: quase uma brincadeira assustadora, em vou andando- até onde? Até onde? Não há limite, você esconde o infinito, parece simples, um espaço tão curto que cabe dentro dos meus braços.

Às vezes você é uma armadilha que me apanha de surpresa. Julgo brincar com você, mas é você quem brinca comigo. E sempre no meio de uma frase, um acidente reduz a distância, ou, pelo contrário, aumenta-a, uma diferença mínima, que, no entanto arrasta pesadas conseqüências, como se o bater de asas de um inseto fizesse rebentar uma tempestade. O acenar, longínquo, de outra frase , que sem saber como se insinua, sobe à superfície e me levo aonde eu não desejo ir.

São impulsos que se organizam em frases, ligando-se ou desligando-se, temas que parecem desaparecer como se os tivesse abandonado, mas depois voltam insidiosamente, aqui e ali, por vezes quase irreconhecíveis- E me levam aonde? Aonde? Oh, Adriano é demasiado misterioso para não me embrenhar nele sozinha.

Foi um dia diferente, hoje. Eu olho arrastada de surpresa, e desejo que não acabe nunca. Suportei muito mal esse intervalo que me pareceu terrivelmente longo, asfixiado por um ar sufocado e tenso.

Foi então que decidi tapar os olhos e não vê, mas como conseguiria despregar os olhos de um Adriano suspenso. Se eu o deixar de olhar, ele cai. É o meu olhar que o mantém equilibrado lá em cima. E por isso não posso fechar os olhos, tenho de olhá-lo até o fim.

Ou talvez fosse possível trazê-lo de volta através da atenção. Nesse preciso instante, ele existe. E, se consegue existir no instante, não há motivos para não conseguir existir noutros instantes e ser capaz de, por fim, se ligar ao tempo.
Tudo está muito claro, e vem ao encontro do que eu penso: o amor é imensamente livre, mas até certo ponto previsível, mas isso não constitui um mistério. É apenas assim. Naturalmente.

Eu também tenho medo. Medo de me afogar em você. Medos do improviso, das frases que andam na minha cabeça e ainda não foram proferidas, e mesmo em sonhos voltam e não acham solução até implodirem ou explodirem dentro dos sonhos, não lhe disse que só de olhá-lo já ouvia o modo exato como deveria soar o tom proferido por você. E eu indo atrás desse som interior como atrás de uma luz, com a sensação de não poder alcançá-lo.

Eu estou ligada a você e você faz parte da minha vida. Eu encontrei em você alguma coisa que não é da ordem das palavras. Embora só possa Transmiti-la em palavras.
Entregar-me a você é uma tarefa desmedida, humilde e perigosa. Você ri, acende um cigarro. Talvez como forma de perder seu tempo e a sua vida. Ou também de ganhá-los. Eu não concordo com esta versão de sua verdade; o título do meu livro que você ousou escolher por mim: “Pare de perder seu tempo e sua vida”. Mas tem tanto direito de existir como outros títulos que inundam o mundo: “Como adestrar cães”, “Como fazer amigos”, “Como podar roseiras”, “Como cultivar cactos”. E o tempo não se encarregará de substituí-lo por outro.

Como a última frase de um romance que já está contida na primeira. É sempre o tom que decide tudo. Nos verdadeiros romances o essencial é até certo ponto previsível.
Caminhei debaixo de chuva, um dia desses, com as roupas e os sapatos encharcados, então pensei uma visão desencantada que poderia ser suportável, desde que haja uma boa dose de felicidade individual, e no fim se tudo falhar e eu perder todas as minhas apostas restarão sempre, no fim, o quotidiano vivido.


Suely carvalho.

Meu Amor:

Você é não. Você não é tudo pra mim. Não é minha única causa nem minha única guerra. Seu nome não é o único titulo da minha historia. E meu silêncio não é propriedade exclusiva sua. Você não é meu único carnaval. E não são apenas seus defeitos que me irritam. Não sou monoteísta para adorar apenas um único Deus. E não imagine que sua mão estaria sozinha pra me socorrer. Meu vocabulário não se limita a seus adjetivos- existem mais sete maravilhas no mundo além de você. Você não é minha única adrenalina. Nem todos os componentes dos remédios que me aliviam.

Você não é cada centímetro quadrado do meu chão. O amanhã acontecerá com ou sem você. Meu interesse não é restrito só as suas polêmicas. Não só suas piadas me fazem rir. E seus ouvidos não são os cúmplices de minhas aflições. Você é só uma de minhas vozes. Minha conta telefônica não vem obsessivamente com o seu numero. E no meu arquivo musical existem mil e outras músicas além daquela que me faz lembrar você. Quando olho para o meu umbigo não é você quem vejo. Sua tristeza não é a única que me comove. E as pernas que me sustentam não são você.

Não sou teleguiada, conheço muitos outros endereços além do seu. Seria prepotência achar que meus pensamentos são monopólio seu, você é um dos sótãos em que me escondo. Você não é meu único álibi. Existem outras pessoas das quais também espero perdão. Você não é um compromisso onipresente na minha agenda. Outros elementos também compõem minhas fotos. Você sozinho também não mata minha fome. E não sejamos hipócritas: há outros perfumes no ar além do seu, assim como, há outras peles que me excitam. Você não é o único com 36,5ºC. E não é apenas o seu corpo que pode abrigar meu sexo. Você não é meu único vicio.


E por não ser tudo isso, por ser um entre tantas alternativas, você é o meu não a todos os outros. Você é a escolha. Meu sim a você é um exercício de livre- arbítrio praticado segundo a segundo. Sim a um contrato sentimental que nada distingue, separa, sobrepõe, submete. Sim a uma política de boa convivência sem falsidades e sob todos os esforços. Sim. Aquele que me desperta a curiosidade de um aprendiz e faz de mim um embrião a multiplicar e ser, a cada dia, uma nova pessoa e também a mesma. Sim a quem, quando me vejo ao longe, ainda espero ter pra conversar. Um sentimento que existe não por dependência e nunca usado como moeda de troca. Peça fundamental no equilíbrio do meu caos. Você é aquele por quem me arrisco a cruzar todos os limites da comodidade para tentar ser melhor. Você é aquilo que me falta dia a dia, que desejo e persigo. Obra em aberto que me inquieta e me encanta.

Você é sim. Essas três letras ecoam em mim. E me reconstrói. Porque você não é um valor: você é um bem, um talento, uma espécie de reserva ecológica da minha sensibilidade. Você pra mim é como a leitura de um poema. Ou me arrebata ou não é poesia. Nem você. Você é como uma palavra que busca uma rima. Quando duas palavras se beijam nasce a poesia. Você é aquela “realidade ficcional” na qual estou imersa quando leio um romance: uma suspensão temporária do descrédito do mundo. Dizer que você implica perda da razão não parece correto. Talvez seja mais apropriado dizer que você carrega outra razão.

Levar as coisas bem aos poucos, juntar nossas vidas com a calma de cada pequeno sim cotidiano e fazer com que a festa da vida no planeta, seja a festa da nossa vida também. O sim, palavra que já ouvi outras vezes e só provou que sou capaz de viver ainda mais feliz, como também viver um amor ainda maior. Positiva a qual, a partir de agora, você se resume pra mim. Porque se você é sim, eu sou não ao que não mais me espera.
Eu amo você.

Suely Carvalho

Carta ao meu Amor: O ócio.

Sonho com o dia em que terei três horas pra não fazer nada e meu corpo sente saudades de uma encarnação em que fui peixe - nem o peso a carregar. Na Riviera Maya, recentemente o coração deu saltos diante das águas enluaradas de um mar soberbo. As ondas quebravam e os plânctons cintilavam em luzes de néon. A lua era cheia, o sol dourado, a areia solta e o mar... Azul. Os dias teriam sido uma sucessão de clichês, não estivesse eu agarrada ao presente como um náufrago aos restos de seu barco. Aquilo eram minha vida e pronto. Por não haver futuro a preocupar, as belezas naturais deslumbravam como se vistas pela primeira vez - só mesmo o ócio pra resgatar a verdade que há em todo lugar-comum.

Quero meu tempo de volta. Quem foi que inventou o futuro? Os índios não foram, viviam um eterno agora no caça, come, deita, acabou, levanta e caça de novo. Os budistas lá no outro lado do planeta também nunca quiseram saber do amanhã. E por toda a Idade Média as pessoas viveram de forma essencialmente contemplativa, na adoração a Deus. Foram os burgueses e os humanistas da Renascença que inventaram de "acordar" o mundo. Resolveram que a religião seria repensada e o modelo clássico de antropocentrização das artes e ciências seria adotado. Criaram o futuro e a necessidade de pavimentar o caminho até ele. O homem clamou pelo domínio da natureza e surgiram as noções de planejamento e crédito. A questão era: qual a vida mais nobre, a da contemplação ou a da produção, devemos viver no ócio, ou optar por sua negação, o neg-ócio?

A conversa vai longe e é filosófica, mas, resumindo o problema que resvalou pra nossos dias, é o seguinte:

Renunciando ao agora e desistindo do ócio criamos uma civilização de prazeres adiados em nome de um por vir que não chega nunca. O lado bom desta busca é o encontro com o novo e a sensação do renascer (o tédio dos reis, pra ser minimizado, impulsionou muito o crescimento das artes). Então, o preço pago pelas tribos de ócio foi a ausência de desenvolvimento e cultura, mas o preço pago pela civilização é o enquadramento do espírito, a correria e a falta de paz.

O que você faz no domingo? Consegue deixar a brisa levar ou precisa de uma intensa programação para o bom aproveitamento de seu lazer? Dá tempo de olhar em volta, sentir, ouvir, perceber o que se passa com as pessoas que quer bem? E olhar pra si, fazer aquela faxina interna, dá? Porque a gente veio aqui pra evoluir e encontrar a paz, mas será que é possível com tanto ruído em torno? Sonho de rico é praia deserta, luz de lampião e rede com vista pro mar - vida do pescador.

Eva e Adão viviam felizes lá no ócio sublime. Quando cometeram o deslize fatal, Deus expulsou-os da Perfeição e como castigo impôs-lhes o trabalho. Mas Deus é pai, e mãe, e por morada forneceu um mundo de natureza equilibrada onde em se plantando tudo dá. Com algum esforço sobraria bastante tempo para os deleites do espírito. Muito se andou, as eras se passaram e chegamos aos tempos modernos - vivemos a época do homem civilizado. No entanto, nunca como hoje fomos tão predadores e gananciosos.

Machucamos Gaia até a Mãe gritar, e o castigo divino virou um vício esgotante. Estamos tristes e se não cuidarmos agora do agora, o futuro não vai existir. Sei não, mas acho que nem nas fantasias mais tortuosas Deus imaginou filhos tão destrambelhados.

Cansada e sem tempo, peço perdão.

Suely Carvalho

Carta ao meu Amor: Demasiado amor.

E foram-se os meses. As voltas com as minhas conquistas e os meus problemas. Não reparei na passagem dos dias. Para as pessoas que abusam da minha boa vontade-obrigada, um muito obrigada. E agora? É hora de ter assuntos, uma idéia inteligente costurada nos dias de ausência.

Mas olhando pra fora em busca de novidades noto que os outros também não se tocaram com a andança do tempo. Hoje, liguei a TV à procura de um tema. O apresentador fala da alta da bolsa de valores. Em outro canal alguém fala de sua aversão a problemas, adiante vejo que os erros continuam saindo do mesmo armário, mudou só a prateleira.

Bom, pelo menos toda essa procura serviu pra eu começar a escrever isto. Sabe como eu tenho me sentido ultimamente? É claro que você sabe, afinal nos últimos meses não tenho feito outra coisa senão lhe confessar todo o meu amor, e como o meu corpo compreende o calor do seu corpo dentro de mim e fora de mim também. Sinto-me vagando por um árido deserto. E jamais vou me cansar de lhe declarar isso. Eu recém chegada de um faz de conta, vou preencher estas linhas com o quê? Difícil. A coisa está feia.

E parada. Caiu a esperança na utopia e não há mais discursos consistentes surgindo na linha do horizonte. Estou descrente, e me sentindo derrotada pela falta de tudo, mas principalmente pela falta de você. O que fazer então? Escrever apenas liberta meus pensamentos. Você consegue me encontrar no que lê? Você ainda não consegue me ver, não é mesmo? Não sei cobrar o que é meu de direito. Às vezes aceito qualquer proposta aparentemente salvadora porque quem propõe parece saber mais do que eu.

Os desencontros só produzem egoísmo e descaso. Interesso-me pelo que não interessa. Quero as coisas apenas pra mim, quero errado, e quero pra já. Normal. O que aconteceu com o amigo? Algum dia ele foi amigo? Ele existiu? Parece que se foi na virada das páginas. Se der tempo, porque não perguntar a um vendaval aonde deixa as folhas secas. Será possível? E ninguém vai gritar. Quando vai cair a última gota para mobilizar o seu eu silencioso, aquele que não sai nas colunas sociais, mas que pensa e propõe soluções? Como parar de nadar contra a correnteza e não se opor ao sentimentalismo incondicional?

Verdade que se o problema é real, ele não é só seu (só é sua a falta de qualquer reação a essa triste realidade). Infelizmente o amor se banalizou piorando de vez a relação entre amigos e criando indivíduos que não sabem ouvir. Indivíduos infelizes. Alguns vêem o eu te amo como um simplório gesto de carinho, mas não pra mim. Não mesmo. Nunca minhas palavras serão ditas como um gesto simplório. Aceita-me!

Há uma relação muito estreita entre bem-estar e estar junto, quanto mais se quer menos se tem, por que ficar se comparando com o vizinho, que tolice. Então na atual trama das aparências que mexe o meu mundo, o medo precisa sair de férias. Que tal tentar enxergar nas pessoas o seu lado bom, ao invés de ver nelas uma ameaça, e se ligar a isso. Quem sabe estarás mais contente e menos isolado. Reconstruir a teia é um largo caminho. Paciência. O amor que fica é o mesmo. As lembranças são as mesmas. E tudo o que eu escrevo pra você é o que eu penso e o que eu sinto.

Crie a sua filha com mais dedicação, e tente ser mais gentil comigo, se for mais eficaz em seu trabalho, se tiver atitudes que nasçam da bondade e não da busca por uma recompensa. Estarás fazendo a sua parte por este doente terminal que é a sociedade em que a gente vive. Isso parece papo de avô e talvez seja. Mas quem sabe o vovô já não soubesse das coisas lá nos idos do passado? E quem garante que o vovô não é a única luz de sabedoria nesse túnel de mesquinhez?

Ontem fui a Igreja, ao convite de uma amiga, a única. E enquanto o padre celebrava o seu sermão, e filosofava sobre o amor, pensava eu nas possibilidades de como tudo isso terminaria, e no silêncio daquelas filosóficas palavras bíblicas, comecei a filosofar também.

O Amor, pra mim, é como uma bênção da Igreja para as pessoas que acreditam nela. Para mim ele é a luz da misericórdia. Jamais abro a minha porta atrás de mim sem a consciência de estar praticando um ato piedoso para comigo mesma. Principalmente quando de resto nossas vidas estão expostas a uma ferida aberta. Nada me desarma tanto quanto as suas atitudes de receptividade.

É tão relativamente pouco o que as palavras podem fazer em relação a falta que eu sinto de você. Tão relativamente pouco o que as palavras podem fazer em relação a seja lá o que for. Mas que outra coisa tenho eu?

A lamúria é um vírus, uma doença mortal, infecciosa, epidêmica. Não quero ouvir lamurias. Não de você. Você entende? O tempo que passamos juntos é tão pouco, não dá pra perdermos o pouco tempo que temos com lamúrias. Não é descaso meu para com você, não se trata de desinteresse meu por seus problemas, nem pela sua vida. E a isso tudo você chama de egoísmo meu. E diz que me odeia por eu não entendê-lo. Não quero compactuar com essas orgias de mesquinhez emocional as quais você sempre tenta provocar em mim.

Quando eu corria à noitinha, ficava olhando o pôr-do-sol, que levava tanto tempo para se pôr, para que nós seres absurdamente cegos nos deslumbrasse com aquela infinita difusão de cores. Como se afinal o sol na hora de ir embora encontrasse tantas qualidades no mundo que a hora o fazia partir a contragosto. E pensava também nas suas lamúrias, que se iam embora junto com o último feixe de luz.

Quando aquele apresentador falou sobre a alta da bolsa de valores, lembrei do apaixonar-se por ser uma coisa altamente supervalorizada. Apaixonar-se consiste em quarenta e cinco por cento de medo de não ser aceito e quarenta e cinco pro cento de esperança maníaca de que justamente desta vez esse medo seja desautorizado- e finalmente de modestos dez por cento de frágil sentimento de que exista a possibilidade de amor. Por isso não nos apaixonamos com tanta freqüência. É uma constatação. Primeiro amei você, amor de amigo, terno e paciente. Depois me apaixonei, paixão carnal, dessas que não acontecem todo dia. Comigo as coisas têm uma tendência a acontecer ao contrário. Não existe uma condição pra amar. Você ama e pronto, sem esperar nada em troca.

Tenho observado você com muita tranqüilidade. E compreendi algumas verdades, a verdade não precisa ser um colapso, ela pode muito bem assumir a forma de uma sólida passagem para o não ressentimento. Sabia que você blefa maravilhosamente. Prefiro mil vezes sentar e esperar calmamente você começar a verborragiar as suas verdades, do que andar no meio de todas as suas mentiras medíocres.

Não há ser humano que não fique aliviado quando alguém o obriga a falar a verdade. Eu gosto da verdade. Eu gosto do que é verdadeiro em você. De sua essência.

Gostaria tanto de não ter essa mentalidade tão medíocre quanto as suas mentiras. Mas não tenho, mas não tenho. Tenho um jeito luminoso de perceber as coisas pelo lado inusitado, do tipo que torna tudo óbvio, mas só depois de apontado por mim. Às vezes também é delicado a ponto de a gente ter que virar a página com cuidado para não perturbar o momento. Sim, eu poderia ser uma personagem, e você também por que não? Somos uma linda história e passar a sua imaginação pra longe de nossas repetitivas circunstâncias não fará mal algum.

Eu amo você, Meu Amor.


Suely Carvalho

Carta ao meu Amor: "Quando você faz amor comigo".

Quando você faz Amor comigo...

Meu corpo todo, cada pêlo, cada órgão lá de dentro,
Sorve aquilo tudo de tal jeito,
Que não sei como é que o peito,
O coração ali desfeito,
Tudo preenche, estufa, cresce e, se esvazia ao mesmo tempo.
Num instante vou morrer.
No outro me acho plena em você.
Quando você faz Amor comigo...
E que a noite a gente deita,
O mundo pára o rodopio,
E em conduta de desvio
A lua acende sendo dia
E eu te lavo, cuido,dou comida, cafuné
Que em meu sonho o mundo aceita
Eu sou sua, satisfeita, nua,
Você, meu macho
Eu, imperfeita.
Quando você faz Amor comigo...
Mas que em seguida me acorda,
E me despreza, me larga, me rejeita,
Coloca outra no teu leito.
Sofro mais, meu amor desfeito.
Posso até arranjar um bem semelhante
Está cheio por aí solto, galante
Quem sabe até melhor amante?
Ele, meu macho.
Eu, relevante!
Num instante ia morrer
Totalmente presa a você
No outro me acho, bobo
Livre de você.
E se ainda a tua cabeça vens zoar comigo
Cheio de cantada em sustenido
Um dia há de ser passado antigo
Eu vejo bem,
Embora não tivesse sido só desejo
Gostei, quis, desejei, e muito
Só provar um pouco do teu beijo.
Agora está bem cheio aí, bonito, limpo,
Quem sabe até mais distinto
Pronto para Amar o Amor que sinto.

Suely Carvalho

Carta ao meu Amor: Planeta Amor.

Lar, doce lar. Entrei em casa, larguei as sandálias no meio da sala, abri a porta do quarto, liguei a lâmpada, deixei a luz se esparramar e fiz o mesmo, na cama. Ai que saudades das minhas almofadas cheirosinhas, livros, incensos, ai que saudades de mim. Fechei os olhos. Esqueci o mundo. Mas o melhor mesmo é, depois de esquecê-lo, voltar para ele e encontrá-lo perfumado, vivo, pulsante, como se tivesse vida própria.

Meu mundo estava ali, lindo, limpinho e arrumado, bem como eu gosto. Até as flores nos vasos estavam frescas, exuberantes, exalando um perfume macio, aconchegante, bom de suspirar. E como suspirei! Enchi de ar os pulmões e a mente de recordações, de um encontro que há muito não acontecia, em climinha de amor. E de despedida. Ah, não precisa fazer essa cara de surpresa. Não foi uma despedida pra nunca mais, muito pelo contrário, foi para até breve. Brevíssimo.

Você é perfeito para mim, não conseguiria ficar muito tempo longe da sua boca que me atordoa, das mãos que aos poucos vão conhecendo a intensidade do toque que aprecio, do sorriso, do olhar, dos braços, de você por inteiro, homem, macho, viril, mas principalmente da inesgotável certeza de me sentir desejada. A sua companhia potencializa esses momentos fogosos e profundos. E Ainda por cima ouvi-lo gemer e saber que logo, logo, nós dois estaremos gemendo juntos. Você é um cravo, e eu um botão aberto, é, precisa terminar a frase?


Nossas noites são um mistério só. Daqueles que a gente entra e parece que não vai começar nunca, olha a magnitude do todo e de tão impressionante pensa até em desistir. Mas justo nessa hora tudo começa a acontecer, a se movimentar, e o medo vai dando lugar a expectativa que vai se transformando em euforia, e a coisa toda vai subindo, subindo, e quando você vê atinge o topo e olha para baixo, naquele exaticíssimo segundo entre o “ ainda estou segura ” e o“ agora já era ”, você tem a certeza de que está perdida, que não há nada mais a fazer senão rezar, gritar, berrar a plenos pulmões. Isso claro, enquanto o frio na barriga que te consome as entranhas não tomar conta de tudo e o silêncio do espasmo final amolecer até a última de suas hemácias pulsantes.

E como tudo isso é fácil. E tão bom! Nada de preocupações, só prazer; nada de erros, só acerto; nada de tristezas, só alegria e, principalmente, nada de pensar no mundo lá fora, só o mundo de dentro: eu dentro de você, você dentro de mim. E chega uma hora em que não se sabe mais quem é quem e, você começa a se transformar nessa outra pessoa que também é você, mas que desconhecia. Lembrei aquele abraço primeiro cheio de evidências de saudades... Aconchego e uma boa dose de toques nada sutis. Deslizei suavemente para os seus braços, assim, molemente e sempre. Suas mãos firmes abraçaram- me pela cintura. Ficamos ali olhos nos olhos, em pé, perto da porta. Dei um meio sorriso, safadinho. Mas baixei o rosto, submissa. Você levantou meu rosto, arrumou meus cabelos, beijou meu rosto suavemente, mordeu meu lábio no meio de um sorriso e beijou de novo, e beijou de novo, e outra vez, e roçou o seu nariz no meu, e voltou a me beijar.

Senti um arrepio na espinha, e uma coisa escorregando pelo meu pescoço: era a sua boca, a sua língua quente. Suas mãos levantavam meu vestido e me acariciavam, acariciavam e me tocavam, tocavam e se deleitavam, e eu me derretendo... Completa. Imediatamente com o contorno do queixo deliciosamente, degustado. Paralisei. Ficaste me contemplando. Não consegui emitir uma só palavra. Não ouço as suas perguntas. Por que me torturar desse jeito? Ficamos assim, até cairmos um dentro do outro, sem freio, inebriantemente. Por que não me abraçar assim pra sempre?

Há certas coisas inexplicáveis na junção de dois universos particulares, cuja intimidade é tão ausente quanto desnecessária, às vezes. Há sintomas que não precisam de tempo para surgir, como músicas que não precisamos ouvir várias vezes para gostar. Há pessoas cuja química bate com a nossa na primeira vez, feito dois ímãs que se atraem terrivelmente. É muito raro. Duas pessoas que se conhecem tão pouco chegar ao clímax juntos, sem os estímulos a parte que não o encaixe perfeito. Nosso êxtase é tão mágico, tão intenso, tão surpreendente que palavra alguma, ainda que se aproxime, descreve o que rola.

Meu coração descompassado aos poucos se acalma. Juro. Acho que vou morrer ali mesmo. Depois dessas coisas eu não consigo falar, nem rir, mal consigo respirar, minhas pernas estremecem a tal ponto, como se eu levasse um choque. Cósmico. Eu não consigo voltar a mim. E olhar pra você, e vê-lo com um sorriso relaxado, estampado. Só me alivia ainda mais. Fico admirando a beleza rústica de seus traços, as suas cores, que mudam inevitavelmente, a sua boca delicada, macia. Seu cheirinho de homem suado. Tentando fazer papel de sério. Seriíssimo. E quando você vai parar de me dispensar e pedir carinhosamente e indecentemente pra gente começar tudo de novo?

Já percebeu que a brisa sempre fria da noite de nossos encontros nunca é suficiente para apagar o fogaréu de nossos corpos? Descobri em você uma incrível capacidade de manter acesa. Ininterruptamente.
Na cama, suas mãos escorregadias deslizavam a minha pele como se estivessem num longo corrimão de prazeres. Quadris encaixados, pernas entrelaçadas. Éramos um emaranhado de braços, fome, respirações entrecortadas, ritmo cadenciado. E muito, muito desejo.

E quando seu rosto foi descendo, descendo, e as mãos subindo, subindo. Agarrando meus peitos. Saboreando- os sem dó. Eu os amo, mas você parece amá-los ainda mais. Eu adoro quando você me suga. Engoli meu peito como se estivesse num deserto sem beber nada há dias. Meus peitos excitadíssimos chegam a doer de tão duros, pedindo para serem abocanhados, pedindo não, implorando. E então digo: venha. E você vem.
Minha respiração ofegante se descontrolou. Senti alguma coisa quente e na horizontal, firme, entre as minhas coxas, erguer-se em busca do encaixe perfeito. “Ainda não”, sussurrei. Mas, eis que o desponta, enfim. Vertical, ereto, mais forte do que eu... Ai, ai, ai... Quanto mais eu gemia mais você se enfiava dentro de mim, até me preencher totalmente. Meus “ais” o excitam?

E quando você me vira de quatro e, quando desvira, me vira pelo avesso. E a sua língua, penetrante, ligeira e lenta, vai me invadindo, escalando proeminências e, como é morna, e gulosa, e certeira. E se a língua não tem dentes, não sei como ela faz, lambe mordicando, mordica lambendo, arrepia, arranha, puxa, repuxa, engole, e meus lábios se tornam seus. E quando todos vão se tornar de fato? Todos eles, os de cima e os de baixo, e os de dentro e os de fora? Vai ser um tesão do início ao fim.

Minhas pupilas se dilatam de prazer no exato instante em que você penetra seus olhos nos meus. “Perdi”, penso, “preciso reconhecer que você manda em mim, e me protege”, deliciosamente. Fui ao fundo, beijei a sua boca. Lábios úmidos, urgentes, masculinos, procuraram os meus. E o nosso beijo foi o último e o primeiro, e nossos toques foram descobertas, e ao mesmo tempo velhos conhecidos, e nossas almas se fundiram em uma só. Frente a frente, nós protagonizamos o ato final. Foi o momento nosso de entrega e encantamento. Tudo o que a gente faz é tão lindo, tem uma energia tão boa, é tão calmante, que eu poderia estar nesse estado de relaxamento físico e mental a minha vida inteira.

Faltou um pouco de filosofia nisso tudo, você não acha? Pois bem:

Existem vários tipos de pessoas: as que curtem e, as que não curtem e, as que curtem imaginar os outros curtindo, as que cruzam os próprios limites, as que sonham em cruzar e, as que jamais cruzarão, as que nunca dizem nunca e, as que não avançam por não saberem que podem. As que podem e sabem que podem, e cruzam, e curtem! E existem ainda vários tipos de mulheres: as que cedem e gostam, as que cedem e não gostam, as que não gostam porque nunca cederam, as que aceitam, as que não aceitam, as que se aceitam! E para todas elas, os corpos, os beijos, consolos, prazeres, identidades, simbioses, línguas, são o que são e o que podem ser. Existem vários tipos de vida. Importante é a gente estar feliz com a que escolheu para si. Eu escolhi viver e ser feliz. E que essa tenha sido uma das melhores entregas de minha vida.

Entreguei- me como quem se oferece espontaneamente a um altar de sacrifícios. Sabia que minha escolha em não tornar esse relacionamento uma rotina, odeio rotina, mas sim um hábito, não tinha volta. Sabia que você, Meu Amor, tão metade minha, tão meu, não me pertencia. Porque eu o desejo intensamente, mas do que jamais desejei alguém, mas o desejo livre. Porque todas as vezes que ficarmos juntos será porque queremos estar juntos e, não porque simplesmente, juntos, estaremos. Serei sua, apenas sua, enquanto isso durar. Mas para ser sua, preciso antes, ser eu mesma. Ai que saudades... Fiquei completamente fora de órbita. Impossível aterrissar desse jeito. No mundo dos prazeres, não há Lei da Gravidade. É bom estar de volta ao meu mundo.

Suely Carvalho






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Carta ao meu Amor: Manifesto.

Não acho uma boa misturar amizade com sexo, mas descobri que sexo com amizade é muito bom. Nem todo amigo é degustável, mas toda degustação pode, sim, tornar- se algo mais. Infelizmente, nós nos acostumamos a envolver- nos justamente ao contrário, o que acarreta dois problemas: um, “ quando você alia o fator “troca de fluidos” ao que antes se limitava a“ troca de idéias”, você corre o risco de perder o amigo e ganhar um caso. Dois, quando mantém a transa impessoal, artificial, tentando mostrar para o outro que você é daquele jeito e obriga- lo a aceitar, sutilmente, é claro. Com isso você deixa de cultivar um tempero imprescindível a um bom sexo: a intimidade”.

Um amigo é parte de minha vida como um porta-retrato na estante da sala, está sempre presente, mesmo que ausente fisicamente. Passo por ele várias vezes por dia, com o olhar ou com a lembrança, e sabemos que o papel dele é estar ali, na alegria ou na tristeza. Quando o levo para cabeceira da cama, presença e lembrança se intensificam. Começamos a dormir com ele. É uma mudança e tanto, de relação para relacionamento. Você está preparada para isso? Ele está? É o que vocês querem?

Transar com um amigo não existe. Existe transar com ex- amigo. Você pode até se iludir que a amizade não vai mudar. Entenda: vai mudar e muito. Mas se os dois já não são os mesmos e nada mais era como antes, pra que se apegar ao passado? A vida é feita de ciclos, as mulheres fases, os homens inconstância. Uma dessas três verdades virá átona cedo ou tarde. Caiu na cama? Deita e rola. Deixou- se derrubar? Entregue os pontos. Derrubou? Administre. É uma questão de responsabilidade. Se foi impulsivo, premeditado, previamente conversado, nada disso importa. O que importa é que aquela pessoa que lhe conhece pelo avesso, bem, agora lhe conhece por dentro. O seu conceito de cumplicidade deve ser reavaliado. E as palavras medidas.

Você pode até falar de tudo com um amigo. Até de sexo, por que não? Sexo com outras. Mas no momento em que o assunto vira o sexo entre vocês, é o fim das confidências. Não que seja proibido. É simplesmente deselegante, para não usar o termo “desagradável”. Absolutamente desnecessário saber o que ele faz com a fulaninha da esquina, ou da sala de aula, que seja. Não há hipótese de rirem juntos do fato de ele ter dispensado você para sair com outra. Entre amigos, rolaria compreensão e incentivo. Com sexo vira uma tremenda sacanagem. Antes de ser amiga, Eu sou mulher. O segredo do sucesso está em dosar os seus argumentos, se é que existe um. E o fantasma de suas carências.

Amigo é aquele que não vê em você uma possibilidade de sexo. Por isso é tão raro. Mas concordo que, nesses tempos de escassez de caráter, colorir uma amizade tem lá suas vantagens. É um porto seguro. Você já sente amor pela pessoa, mesmo que ainda não sinta paixão, se é que vai. Há respeito e carinho Há muito tempo descartei a literalidade do verbo amar, que pode querer dizer “você é linda”, “eu te admiro muito” e por aí vai. Sem medo de julgamentos errôneos.

Você tem todas as vantagens. Por que não evitar as desvantagens? Arraste- me para sua casa. Saiamos da superficialidade, sem selar compromisso. Agregar amizade a um relacionamento eleva o grau de cumplicidade a uma intimidade já atestada e aprovada. Agregar um relacionamento a uma amizade é o inverso, a intimidade que entra na cumplicidade. Não acredito em certo ou errado. Cada um sabe o que é melhor pra si. É uma questão de reconhecer o que o deixa feliz. E permitir- se. Só isso. Só há um item imprescindível: tesão. Sem tesão, amigo é irmão. Nem com pincel atômico você vai consegui colorir.

Sexo não é o que se faz. Nem como se faz. Sexo é o que é. E tudo aquilo que a gente conquista. É preciso respeitar o tempo de cada um. Faça isso valer a pena. Apenas espere. Espere nossos circuitos internos entenderem que é inútil lutar contra o inevitável. O inevitável sempre acontece. Uma hora dessas eu vou ter ouvidos e paciência pra escutar você falar o que você fez, seja lá com quem for.

Suely Carvalho

Ao Meu Amor

Será que elas sabem que quando você goza é comigo que você está? Que os beijos foram pra mim a cada gota de suor? Será que sabem que nos seus silêncios é comigo que você conversa. E na hora dos seus mistérios, estamos de mãos dadas? Que sou eu a Dulcinéia que te acompanha nas lutas quixotescas contra os moinhos de vento de suas fantasias, elas sabem? E elas sabem que você é um caipira turrão, osso duro de roer? Não bobo, isso elas não sabem por que você não entrega o ouro tão cedo, aliás, melhor contar que você não entrega o ouro nunca. E você sabe que eu nem consigo deitar com outro, porque meu corpo grita Não, e me chama de vagabunda? Tem um buraco que fica entre os dois peitos, um plexo, que apesar de solar, deveriam chamar pluvial. Pois ali me entra cada coisa. Outro dia entrou o mar inteiro, subiu até a garganta, apretou tudo, e está lá- não quer sair.

Vou te mandar um pouco Cabe aí, ou você continua empanturrado pela terra toda que engoliu para não morrer de fome da falta de mim? Até quando será, vida minha, que o destino espera a gente se cansar de andar em círculos? Será que ele vai ter uma paciência infinita com essa mania de a gente se amar de longe? Ou um dia ele vai puxar-nos pelas orelhas, botar-nos juntos e dizer: ”Acabou o Tom e Jerry. Estão perdendo muito mais do que jamais vão encontrar. Um olhando para o outro, já! Viram? E tocados pela varinha do cosmos nós saberemos que era ali que sempre quisemos estar. Você fará um abrigo para o nosso amor. To até vendo, ficou bonito, agora sim, você sempre teve bom gosto?

Eu te puxo pra rede, faço um cafuné sem fim e conto histórias pra gente dormir. Ai que bom... já pensou o cansaço que vai bater quando finalmente a gente parar com isso? Ah, só assim você vai perceber e contar pr’alguma delas que pensa em mim todos os dias, e que há dias em que pensa sem parar? Perturba? Você vai ver. A gente não consegue fazer as coisas, tocar o barco. Nem fingir direito que gosta de outro dá. Eu acordo todos os dias tomada por você. E ando acordando de madrugada. Você parece que pula em cima de mim,e eu dou aquele salto e pronto, é risada, conversa fiada, lágrimas, de um tudo, mas nada de dormir de novo. Você não deixa. Depois passo o dia bocejando e não tem como explicar, vou dizer o quê?

Passei a noite com o meu amor que não estava comigo por que... Por quê? Outro dia eu acordei querendo morrer de saudade. Tive palpitações, era grave, liguei pro médico. “Doutor, estou sofrendo de amor, não paro de chorar, meu coração vai sair por esse buraco entre os meus peitos, e agora não é uma boa hora pr’eu morrer. Tenho sete disciplinas pra estudar nesse período, tenho artigos pra escrever, tenho que trabalhar, tenho dois bebês: meu sobrinho e minha mãe pra cuidar, socorro, preciso de um remédio poderoso! Ele me conhece bem, fez a receita na hora. “Vou te passar porque num momento de apuro, evita uma ida ao médico. Parta pra outra! Jamais a encheria de pílulas. Isso passa. Muito mais depressa do que você imagina. Volte para sua Ioga e ouça músicas clássicas.

 Já ouviu Sonata? Tão romântico’’. Onde eu estava? Ah sim, Sonata é para insônia. Porque desculpe mas eu tive que contar pra ele que você não me deixa dormir. Você viu? Ele falou pr’eu te mandar embora. Mas eu já fiz isso, nós sabemos quantas vezes não é? E você não vai. Quando vai, não sai de dentro de mim do mesmo jeito, entranhou, é praga da vida. Ai que praga boa... Boa nada, imagine eu, super controlada, tendo que me entupir de comprimidos, francamente! Ainda bem que o meu médico é são. Sabe o que o meu sobrinho me falou? Ele que me adora, sempre gostou desde neném, sabia? Outro dia me vendo triste ele perguntou, “Su, porque você fica com quem te faz sofrer assim? Ele só tem oito anos!’’ E eu, “ Porque acho que quando vale a pena a gente tem que fazer tudo, tudo o que for possível pra dar certo.”

Passou-se algum tempo.

“Você fez tudo o que podia?”

“Acho que sim.”

“Então presta atenção, da próxima vez que ele cruzar a sua mente, você pensa, “que bom que eu me livrei desse cara!”

Não sei de onde ele tira essas idéias. Acho que a convivência comigo, aos oito anos puxa! Mas é que ele não agüenta me ver sofrer por tanta contradição. “Não faça com o Adriano a mesma coisa que você faz com os outros!”. Podia ser simples. Na minha outra história, quase deu certo, o quase que me mata. Até o João aqui da esquina dorme na calçada agarrado com a sua Maria.

O Cristian tem razão, podia ser bem mais simples. Mas e aí... pra quem eu iria escrever esta carta? Repleta de sim’s categóricos.

Suely Carvalho

Carta ao meu "Amor": Lembranças.

O que realmente acontece é o que menos importa. A memória que você tem do que aconteceu é a que fica. O momento dura alguns míseros segundos. A lembrança dura para sempre. E se aperfeiçoa na linha do tempo. Se o sabor do Amor é tão bom quanto eu penso que seja, não posso afirmar. Mas o tempero que revivo em sonhos acordada torna os seus beijos melhores a cada dia. Lembro hoje com mais intensidade do que ontem. O amanhã certamente potencializará os sentimentos. Quanto mais perto de repetir o que foi bom, mas a fantasia transforma o óbvio. Excita. E o instante é sempre melhor, muito melhor do que o que já passou. Assim escrevo a história da minha vida. São essas histórias que você sempre irá ler.

As lembranças dos momentos de prazer ficam no corpo e ele pede mais. O corpo fala sabia e, como fala. A prova disso eram os seus convites inesperados, um encontro em sua casa no meio da tarde. Não dava para notar? Minha ansiedade borbulhava só de pensar em seus olhos nos meus desbotando a minha pele de tanta emoção. Desejava ouvir sua voz macia enquanto me amava. Desejava o seu abraço se desfazendo em mim quando se mostrasse frágil de prazer em volta do meu corpo. Desejava as lágrimas que brotavam de seus olhos, de vez em quando. O seu sorriso que ficava suave quando eu chegava perto e acariciava o seu rosto. Eu sentia tudo isso, não adiantava esconder.

Até que um dia aceitei um desses convites, lembra? Chegando lá havia urgência no entrarmos um no outro. Deitados, na cama, frente a frente. Meu Amor surpreendeu ao erguer minhas pernas ao alto, admirando-as como uma obra prima e suavemente deixando-as escorregar entre seus dedos enquanto alisava tornozelo, batata da perna, coxas e, outras carnes. “Olha isso, você está toda molhada”, sorriu. Sim, poderia ter dito que meu corpo fala e não tinha o menor controle sobre o que ele dizia.

Já havia passado algum tempo depois dessa loucura. Eu precisava me resolver e a solução era ir até a sua casa. Entrei no carro, o desejo me guiando, certa de onde chegaria. Mas às vezes sofro de amnésia aguda. Qual era mesmo a rua? Lembrei, então, de sua boca em meu ouvido sussurrando o quanto eu sou gostosa e, com mais intensidade e, com mais prazer. Lembrei da compreensão dos seus dedos em concha sobre os meus seios, do apertar terno nos mamilos, de ser puxada de encontro ao tórax com virilidade e ternura.

Lembrei-me do corpo quente, o roçar de nossas peles, você ajoelhado na cama, cada veia sua pulsando dentro de mim, de sentir-me preenchida e plena. Mas não lembrei onde estava, nem qual era a casa.
Concentração. Era preciso manter o foco. A idéia de aparecer de surpresa me excitou demasiada, a ponto de eu ter passado imprudentemente, no mesmo lugar, até entender que estava perdida, preferia ter me achado nos seus braços. Como você reagiria? Perderia o ar? A cor? Teria uma ereção? Adoro provocar, perceber visualmente as mudanças no corpo e no comportamento do outro pelo simples fato de eu me fazer presente ou me aproximar. O seu olhar faminto é o melhor elogio que eu posso receber.

No outro dia, voltei, com medo e, ainda frustrada com o que havia acontecido anteriormente. Ao menor movimento, um fechar de olhos, um devaneio inesperado, a ferida da abstinência forçada doía em mim. Como eu sobreviveria a um próximo encontro, que nem havia sido marcado? Se não estava suportando esperar nem o minuto seguinte.

O encontro finalmente aconteceu. Aquele encontro havia sido mitológico. Eu, longos cabelos negros caindo em cachos sobre o corpo nu, ele atrás, corpo largo e protetor. Eclipse do sol acobertando a lua, pernas firmes e seguras, lindo. Eu, face distorcida de prazer, mãos espalmadas sobre seu peito. Meu Amor era potência máxima, lampejos de um perfil másculo que se deixava fotografar pela minha retina. Duplicava-se no reflexo. Sentia os pingos de suor, gotejarem, milímetro por milímetro até o abismo entre as nádegas, encharcando-me. A cada toque, um gemido e um desfalecer. A cada beijo no pescoço, na nuca, trovões internos me estremeciam. Quase tive um orgasmo. Mas o súbito de dor era maior e, parecia não diminuir nunca.

O melhor da nudez é a extensão de pele que ela proporciona. De pracinha com balanço nos transformamos em parque de diversões, com direito a montanha-russa e pau-de-sebo. A dor, agora, já era minimizada com o abrupto desejo. É difícil explicar a sensação do gozo. A simetria ideal, a solução exata, a textura que provoca, o sabor que atiça. É como um vulcão que explode do âmago, rompe a racionalidade, derrete resistências. Vai arrasando barreiras, o desejo sobe queimando feito lava, brota dos poros, escorre nas veias, deságua denso, molhando a calcinha, isso quando há calcinha. A gente sabe que é perigoso ir além do limite, mas a raridade do espetáculo fascina. O chamado é irresistível. Ao menor tremor da terra, vamos caminhando em direção a fervura enquanto fogos de artifício estouram nos céus de nossas bocas. Línguas profundas em beijos ardentes. Entre nós literalmente a pressa é inimiga da perfeição.

O comando é seu e eu adoro. Entro só com meu apelo. E o seu consentimento, é claro. O resto, quem entra é você. Isso não quer dizer que eu não possa ir por cima. Faço o que você quiser. É menos uma questão de obediência cega do que de submissão voluntária. É bom deixá-lo fazer seu papel de homem. Sinto-me mulher. Deixo meu prazer ao seu bel prazer. Sei que vai voltar pra mim. Em dobro.

Eu pensei que esse fosse o nosso último encontro, para mim, cada encontro nosso é o último. Mas não era.
Meu Amor me fez um novo convite. Mas fui a uma reunião com meus amigos. Lá, eu poderia responder por mim. Pelo menos enquanto revivia, entre suspiros, os momentos passados com ele, brindei com meus amigos. Fisicamente eu estava presente, sorrisos, tilintares de taças, mas minha cabeça viajava longe. Meu Amor era tudo o que eu queria beber.

Não resistimos. O desejo sempre trai. Encontramo-nos de novo. Chegamos a sua casa de madrugada. Eu, o silêncio e Meu Amor. Beijos intermináveis. Vias sem fim. De repente eu estava imprensada em uma parede-armadilha de seu quarto. Ele tateando o armário em direção a cama, boca a boca, língua a língua, pés descalços abandonando calças e todos os despudores.

Um espasmo fez meu umbigo piscar. Dedos entravam feito formigas sob a camisa. O leve roçar de seu nariz em minha pele arrepiou-me inteira- barriga, seios, nuca, ponta do cotovelo. Restou-me erguer os braços. Rendida. Meu peito nu grudou no seu. Com um só sussurro, meus mamilos intumesceram-se. Até as minhas orelhas se contorcerem de tesão. Sem pressa. Envolta por seus braços, ficamos ali, garganta com garganta, na simbiose mais profunda.

Intimidade vem com o tempo, mas a química do aqui e agora é instantânea.
Nunca pensei ser assim, mas com você estou sendo. Você desperta em mim uma espontaneidade que flui, uma interação criativa. Vontade de ir além, experimentar, ousar, deixar a coisa toda seguir sem rédeas. Nada é gratuito, nem planejado. A gente se encontra. E acontece. É o instinto mais puro, livre em um descampado, regido apenas por um magnetismo animal, uma atração irresistível. Apenas a dormência abraçada ao aconchego. Ainda agora, cenas de nós dois voltaram a minha mente, a minha pele reagiu como se voltasse ao momento. Arrepiada. Pensei no beijo e senti o beijo. Aquele gostinho seu que não sai da minha garganta. Pensei em suas mãos e senti-as. Pensei no seu cheiro, o seu toque... Ai! E então, não pensei mais nada. Fantasiar é bom, mas estarmos juntos é muito melhor.

Suely Carvalho

Carta ao meu "Amor"

Quis evitá-lo achando que era o correto a fazer, mas compreendi que estava enganada. Sou levada a você, qualquer direção que eu tome. Você, agora, é uma das poucas coisas que são certas na minha vida.


Todos absolutamente dizem que é burrice minha insistir contigo, porque, você não tem conserto pra mim. Que não passa de um grande equívoco de minha parte. Mas você é humano; humano e determinado e, ligeiramente arrogante e, acima de tudo forte. E quem sou eu para querer corrigi-lo? Nunca tive capacidade de jogar com você, apenas revelei, declarei, confessei de coração aberto, sinceramente todo o meu amor, frágil, que eu ainda sinto.

Erro meu, confesso que preciso de você, mesmo reconhecendo que isso parece ser uma falha. Mas não é. Aceitá-lo como inevitável em meu destino e, fundamental em minha história, é sinal de que estou no caminho certo.

Sei que apontam para você sempre que surge comigo. Que chegam a rir quando você fala daquele seu jeito grave e fatal. Mas sei também que, sem você, as coisas perdem um pouco de graça. Que tudo fica muito melhor depois que você chega.

Com você, eu estou aprendendo as maiores lições da minha vida. Posso contar com sua presença nos meus momentos mais difíceis? E durante as questões mais complicadas, lá estará você, sempre, oferecendo-me uma escolha? Se não fosse você, juro, eu não me esforçaria tanto para acertar.

E como nos divertimos juntos, hein?! Lembra? Daqueles nossos encontros de final de noite, eu sempre morrendo de sono, mas feliz por estarmos juntos mais uma vez e, você sempre sedutor, pronto para me levar aonde não devia!

Jamais me esqueço da primeira vez em que nos beijamos, fomos estudar no seu quarto e, depois você caiu em mim e, eu na sua boca e, na sua cama.

Nem daquela tarde, em que cometi a besteira de ti fazer uma surpresa e, eu acabei sendo surpreendida por você embaixo dos seus lençóis.

Soube que agora você quer ser político, prefeito? Posso escrever seus melhores discursos. Largaria o francês? Ou cansou de ser incompreendido? Vejo diversas fotos suas, sempre sorridente. Anda freqüentando certos círculos pelo que tenho notado. Só espero que você jamais se esqueça de quem realmente é.

Posso encontrar você- o que acha dessa idéia? Por aqui mesmo, se for o caso de você andar muito ocupado. Pego uma senha e chego bem cedinho a tempo para o almoço. Que tal um bom prato de massa? Martini: é isso que essa ocasião pede.

Mas não banque o assanhadinho, não pretendo transar com você. Nem que tenha algum cantinho no meio do caminho. Nem que o Martini me deixe tonta. Nem que eu não tenha nada para fazer no final do dia- será que nós nunca conseguiremos fazer algo de divertido durante a tarde, além de sexo escondido.

Bom, também se acontecer, aconteceu. Não vamos ficar depois nos culpando. Você não é meu, nem eu sou sua- se não estou enganada.

Aguardo ansiosa a revisão do nosso encontro.

Suely Carvalho

Bucólicas na Panfília

Quando ele voltou, cobri o rosto com as duas mãos.

Ele me disse: ''Não te assustes. Quem viu nosso beijo?

-Quem nos viu? A noite e a lua.

''E as estrelas e a primeira aurora. A lua mirou-se no

lago e contou à agua sob os salgueiros. A água do lago contou ao remo.''

''E o remo contou à canoa e a canoa contou ao pescador.''

Ai,ai! Se fosse só isto! Mas o pescador contou a uma mulher.

''O pescador contou a uma mulher: meu pai e minha

mãe e minhas irmãs, e toda Hélade ficará sabendo."


Extraído do livro ''Canção''.